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Cem anos do massacre de Santa Maria de Iquique

Um dos maiores massacres contra a classe operária da América Latina cumpre o seu centenário em meio ao esquecimento e à falta de acesso sobre este episódio por parte do grande público, principalmente para a classe operária

Causa Operária - 21 de Dezembro de 2007

http://www.pco.org.br/conoticias/internacional/100-anos-do-massacre-de-santa-maria-de-iquique/zae,s.html

O episódio mais sangrento da história do movimento operário chileno, o massacre de Santa Maria de Iquique, no extremo Norte do Chile, na província de Taracapá, completa 100 anos.

Foi no dia 21 de dezembro de 1907 que o governo presidido por Pedro Montt (1906-1910) destacou o Exército e a Marinha para exterminar os operários do salitre - dentre homens, mulheres e crianças - que reivindicavam apenas aumento salarial e melhores condições de trabalho ante a uma situação precária existente até hoje.

Foram fuzilados na Escola Domingo Santa Maria, na cidade portuária de Iquique, mais de cinco mil operários, dentre chilenos, bolivianos, peruanos e argentinos. Porém, até hoje não se sabe o número exato do massacre. O governo chileno, na época, sob forte censura à imprensa, admitiu os números de cento e vinte seis mortos e cento e trinta e cinco feridos, mas não há dúvida de que a cifra é bem maior, tamanha foi a selvageria usada para sufocar o movimento dos trabalhadores. Comandados pelo general Roberto Silva Renard, chefe da Primeira Divisão e Comandante Geral das Armas de Tarapacá, este sob as ordens do ministro do Interior Rafael Segundo Sotomayor Gaete, as tropas militares chilenas foram mobilizadas para sufocar a greve geral dos operários que trabalhavam nas minas de salitre.

No dia 10 de dezembro daquele ano, os operários cruzaram os braços da salitreira de San Lorenzo. A partir daí a greve se ampliou para outras jazidas, incluindo Peru, Argentina e Bolívia, transformando-se rapidamente no maior movimento grevista do País até então. Milhares de trabalhadores grevistas de San Antonio chegaram a Iquique, concentrando-se no hipódromo da cidade, no dia 16 de dezembro. Os operários esperavam que o governo local pudesse intermediar suas reivindicações com as propostas patronais. No entanto, além de não haver nenhuma proposta dos patrões, o governo enviou para Iquique vários regimentos vindos de Valparaíso. Do dia 16 ao 18, militares não pararam de chegar, encurralando os trabalhadores que estavam alojados na Escola Domingo Santa Maria e na praça Pedro Montt.

No dia 19, chegou à cidade o coronel Sinforoso Ledesma, acompanhado do general Roberto Silva Renard e do intendente titular, Carlos Eastman Quiroga. Os trabalhadores, no entanto, continuavam a chegar em Iquique. Estima-se que no dia 21, mais de 13 mil operários estavam reunidos na praça Manuel Montt e na Escola Santa Maria.

Os trabalhadores do “oro blanco”

As oficinas salitreiras funcionavam a pleno vapor quando se teve notícia do início de uma greve dos trabalhadores de Alto San Antonio, na província de Tarapacá, conhecida por gigantescas greves operárias que vinham se organizando no anarco-sindicalismo. Já em 1904, a Comissão Consultora das Províncias de Taracapá e Antofagasta, presidida pelo ministro do Interior, Rafael Errázuriz Urmeneta, redigiu um documento reconhecendo o perigo de manter os trabalhadores sob um grau tão profundo de exploração: "Não se deve passar desapercebido que encontramos em frente um mal-estar efetivo que se reflete de maneira ostensiva nas relações entre os empresários e os assalariados, e que este mal-estar resultará conseqüências sociais e políticas de caráter perigoso se não forem adotadas medidas eficazes e imediatas" (Portal PiensaChile).

A crise econômica impulsionou naquele momento um grande ascenso de greves que vai de 1903 a 1907: “ a desvalorização da moeda fez cair a taxa de câmbio do peso chileno de 18 a 7 centavos de libra esterlina, levando a uma forte alta dos alimentos. Apesar da degradação do seu nível de vida e das duras condições de trabalho, as reivindicações dos operários do salitre da Província de Taparacá, no final de 1907, são bastante moderadas.

Reivindicam serem pagos em moeda legal e não em bônus. Emitidos pelas empresas, estes últimos só podem ser trocados pelos produtos disponíveis nos armazéns (pulperías) destas mesmas empresas, com preços maiores que os do mercado livre” (Le Monde diplomatique, dezembro de 2007). Outras reivindicações acompanhavam esta demanda básica e elementar: estabilidade dos salários através de um padrão de câmbio fixo de 18 pence (peniques) de libra por um peso; proteção ao trabalho perigoso; escolas noturnas financiadas pelos patrões; em algumas categorias pedia-se aumento emergencial de salário para compensar a desvalorização monetária (idem).

Neste momento, o governo de Germán Riesco passava por uma enorme crise política por causa da guerra de 1891. Os trabalhadores do Norte salitreiro estavam completamente desamparados por leis trabalhistas e morriam aos montes por causa dos altos riscos nas minas. Mesmo com a advertência da Comissão, o governo parecia não estar tão preocupado com a movimentação dos operários do setor de maior renda para a economia chilena. Paralisações ou greves em cidades como Iquique e Pisagua, traziam graves prejuízos para o mercado de exportação do chamado "ouro branco". Em 1906 assumiu o presidente Pedro Montt, que somente fez aprofundar a crise econômica do País com a desvalorização do papel moeda.

Um ano depois, os salitreiros faziam uma nova greve, paralisando várias minas e batizando o movimento de "greve dos 18 peniques". Os trabalhadores das minas de Alto San Antonio marcharam até Iquique, levando bandeiras do Chile, Peru, Bolívia e Argentina, para abrir negociações em torno de suas demandas aos patrões através do governo.

Ao chegar na cidade, pararam no Clube Hípico para descansar da marcha pelo deserto. Cada vez mais operários se juntavam à greve e vinham de todos os lugares da região de Tarapacá. Muitos chegavam nos trens pertencentes às empresas salitreiras. A cidade ficou completamente paralisada e a massa se alojava também na escola Santa Maria. A imprensa local tratava os operários com respeito e dizia que a situação era tranqüila, até a chegada do Intendente titular Carlos Eastman e do general Roberto Silva Renard. A esta altura, enquanto o governo prometia negociações com os patrões, a cidade fora totalmente sitiada e cercada pelos militares.

O general Silva Renard ordenou que os trabalhadores abandonassem a escola Santa Maria e a praça Manuel Montt, caso contrário, dispararia contra a multidão desarmada. Foi o que aconteceu. Duas metralhadoras pesadas e inúmeros soldados armados de fuzis dispararam contra homens, mulheres e crianças desarmados e sem defesa. Os muros da escola, feitos de madeira, não impediam as balas. Era o fim da greve, o fim de uma fermentação revolucionária dos trabalhadores chilenos, que voltariam ainda a ser vítimas de outros crimes igualmente monstruosos durante a ditadura de Augusto Pinochet quase 70 anos depois.

Um número desconhecido de operários mortos em poucas horas

Enquanto o movimento pedia uma negociação com os patrões com a intermediação do governo, os donos das minas diziam que negociariam somente se o trabalho fosse retomado. Ordens expressas vindas diretamente de Santiago ordenavam que os trabalhadores deixassem a escola e a praça e voltassem imediatamente para o trabalho nas usinas. Mas os grevistas se recusaram, pois já sabiam que se voltassem a trabalhar, suas reivindicações não seriam atendidas, como das vezes anteriores.

A tensão aumentou ainda mais quando seis operários foram mortos ao tentarem ir embora de Iquique. Era o início da matança premeditada pelos militares e pelo governo. No dia seguinte, 21 de dezembro, foram realizados os funerais dos operários. Logo em seguida, os militares fizeram um ultimato, ordenando que os trabalhadores deixassem a escola e se encaminhassem para o hipódromo, como se o ultimato fosse uma chance de sobrevivência. Na verdade, já estavam condenados à morte.

Mas os trabalhadores não confiavam nos militares e novamente se negaram a sair da escola e seus arredores. Sabiam que seriam mortos no Clube Hípico. Os jornais publicaram então um decreto de Estado de Sítio em nome do intendente Eastman. O Silva Renard e o coronel Sinforoso Ledesma estavam encarregados de dissolver a greve naquele momento e disseram ao comitê de greve que se os trabalhadores não abandonassem a escola, abririam fogo. Os operários estavam enfurecidos com a morte de seis companheiros e só desejavam uma condição de vida decente. Todos se negaram a ir embora.

Foi então que, às 15h45, as armas começaram a atirar, derrubando dezenas de trabalhadores que estavam nas primeiras fileiras. A multidão partiu desesperada em direção aos soldados numa tentativa insana de parar a saraivada de balas, mas cada vez mais trabalhadores iam caindo durante o trajeto. Os militares iam avançando até entrar nas dependências da escola. Aos trabalhadores não restavam outra alternativa senão se esconder pelo pátio e nas salas de aula. Os soldados arrombavam as portas e disparavam contra centenas de homens, mulheres e crianças que gritavam em pavor, dor e histeria.

Da mesma forma que começaram a atirar, os soldados finalmente soltaram seus dedos do gatilho. A visão era a de uma chacina gigantesca, com pilhas de cadáveres encharcados no chão vermelho de sangue. O terror não havia acabado para a minoria que sobreviveu. Estes não sabiam mais se talvez seria melhor estar no meio daquela pilha do que ser levado pelos militares. Todos foram levados à força para o hipódromo, onde também muitos outros foram mortos.

O governo assustado com a sua própria obra sangrenta impôs uma completa censura à imprensa e tratou de providenciar a volta dos sobreviventes aos seus locais de origem o mais rapidamente possível. Os patrões, após o massacre de Santa Maria, resolveram dar algumas concessões mínimas aos operários mineiros, receando que o movimento grevista tivesse uma nova retomada.

Muito pouco se produziu para documentar e marcar na história este assassinato em massa. As poucas iniciativas são hoje em dia raridade e estão longe do grande público, principalmente da classe operária, devido ao esforço por rasgar esta página da história.

Existem algumas obras literárias, poéticas, teatrais e musicais sobre o massacre, como o livro "Resenha histórica de Tarapacá", de Carlos Alfaro Calderón e Miguel Bustos, publicado em 1935.

Talvez a obra de mais fácil acesso hoje em dia seja a gravação realizada pelo grupo chileno Quilapayún, em 1970, composta por Luis Advis, que retrata através de ritmos folclóricos nacionais a história do massacre de Santa Maria de Iquique. O massacre da Escola Santa Maria é um símbolo, mas apenas um dos incontáveis exemplos da ferocidade com que a classe dominante em toda a América Latina, a serviço do opressor estrangeiro, sempre tratou os povos e os trabalhadores dos seus países e continua até os dias de hoje. Que a classe operária brasileira e latino-americana nunca se esqueça de quem são eles e do que eles são capazes.

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