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Uma guerra mundial começou – rompa o silêncio

« Em 1947, uma série de directivas do National Security Council descreveu o objectivo supremo da política externa americana como «um mundo feito substancialmente sobre a própria imagem [da América]». Esta ideologia era o americanismo messiânico. Éramos todos americanos. Se não, os heréticos seriam convertidos, subvertidos, subornados, enlameados ou esmagados. Donald Trump é um sintoma disto, mas também é independente. Ele diz que a invasão do Iraque foi um crime; ele não quer ir à guerra com a Rússia e a China. O perigo para os restantes de nós não é Trump, mas sim Hillary Clinton. Ela não é independente. Ela corporifica a resiliência e violência de um sistema cujo louvado “excepcionalismo” é totalitário com uma ocasional cara liberal. Quando o dia da eleição presidencial estiver mais próximo, Clinton será louvada como a primeira mulher presidente, pouco importando os seus crimes e mentiras – assim como Barack foi louvado como o primeiro presidente negro e liberais engoliram suas tolices acerca da «esperança». E a verborreia prossegue.»

por John Pilger

ODiario.info - 27 de Março, 2016

http://www.odiario.info/?p=3966

Tenho estado a filmar nas Ilhas Marshall, no Norte da Austrália, no meio do Oceano Pacífico. Sempre que conto a alguém onde estive, pergunta-me: “Onde é isso?”. Se lhe dou uma pista referindo “Biquini”, perguntam-me: “Está a referir-se a um fato-de-banho?

São poucas as pessoas que têm consciência de o biquíni ter sido assim chamado como evocação da ilha Biquíni, destruída por explosões nucleares. Sessenta e seis experiências nucleares fizeram os Estados Unidos nas ilhas Marshall entre 1946 1958 – o equivalente 1,6 bombas de Hiroshima por dia, durante doze anos.

Biquíni está hoje silenciosa, mutada e contaminada. As palmeiras crescem em grelha, numa estranha formação. Nada se move. Não há pássaros. As lápides do antigo cemitério estão radio-activas. Os meus sapatos registaram “não seguro” num contador Geiger.

Estendido na praia, vi o verde-esmeralda do Pacífico desaparecer gradualmente num vasto buraco negro. Foi a cratera provocada pela bomba de hidrogénio a que chamaram “Bravo”. A explosão envenenou pessoas e o ambiente, talvez para sempre, ao longo de centenas de quilómetros.

No regresso parei no aeroporto de Honolulu e reparei numa revista norte-americana, Women’s Health. Na capa uma mulher sorridente com um biquíni: «também pode ter um corpo de biquíni». Poucos dias antes, nas Ilhas Marshall, tinha entrevistado algumas mulheres com «corpos de biquíni» muito diferentes, cada uma delas tinha problemas na tiróide e outros cancros ameaçadores.

Ao contrário da mulher sorridente na revista, todas elas foram marcadas: as vítimas e cobaias de uma super-potência predadora, hoje mais perigosa que nunca.

Conto esta experiência como uma advertência e para interromper um diversionismo que consumiu muitos de nós. O fundador da moderna propaganda, Edward Bernays, descreveu o fenómeno como “a manipulação consciente e inteligente dos hábitos e das opiniões” nas sociedades democráticas. Chamou a isto “governo invisível”.

Quantas pessoas estão conscientes de já ter começado uma guerra mundial? Por enquanto, é uma guerra de propaganda, de mentiras e de diversificação mas, num ápice, tudo pode mudar com a primeira ordem errada, com primeiro míssil.

Em 2009, o presidente Obama estava perante de uma multidão, de pé, no centro de Praga, coração da Europa. Então, comprometeu-se a tornar “o mundo livre de armas nucleares”. A multidão aplaudiu, alguns choraram. Uma torrente de elogioss inundou os media. A seguir, o Prémio Nobel da Paz foi concedido a Obama.

Era tudo falso. Ele estava a mentir.

A administração Obama construiu mais armas nucleares, mais ogivas nucleares, mais sistemas de entrega de cargas nucleares, mais fábricas nucleares. Só os gastos com ogivas nucleares sob Obama ultrapassam os de qualquer presidente americano. Ao longo de trinta anos mais de 1 bilião de dólares (trillion).

Foi planeada uma bomba nuclear mini. É conhecida como a B61, Modelo 12. Nunca houve nada como isto. O general James Cartwright, um antigo vice-presidente da Joint Chiefs of Staff, declarou: «Tornar a arma nuclear mais pequena [faz a sua utilização] mais pensável».

Nos últimos dezoito meses, a maior acumulação de forças militares desde a Segunda Guerra Mundial – liderada pelos Estados Unidos – acontece ao longo da fronteira ocidental da Rússia. Nunca, desde a invasão da União Soviética por Hitler, tropas estrangeiras representaram uma ameaça tão evidente para a Rússia.

A Ucrânia – outrora parte da União Soviética – tornou-se um parque de diversões da CIA. Tendo orquestrado um golpe em Kiev, Washington controla, de facto, um regime vizinho e hostil à Rússia: um regime literalmente, apodrecido por nazis. Eminentes figuras parlamentares da Ucrânia são os descendentes políticos dos notórios OUN e UPA fascistas. Louvam abertamente Hitler e clamam pepa perseguição e expulsão da minoria de fala russa.

Isto raramente é noticiado no ocidente, ou é invertido para suprimir a verdade.

Em Latvia, Lituânia e Estónia – vizinhas da Rússia – os militares estadounidenses estão a instalar tropas de combate, tanques, armas pesadas. Esta provocação extrema à segunda potência nuclear do mundo é recebida com silêncio no ocidente.

O que torna a perspectiva da guerra nuclear ainda mais perigosa é a campanha paralela contra a China.

É raro o dia em que a China não seja elevada ao status de “ameaça”. Segundo o almirante Harry Harris, o comandante estado-unidense do Pacífico, a China está «a construir uma grande muralha de areia no Mar do Sul da China».

Refere-se às pistas de aterragem que a China está a construir nas Ilhas Spratly, objecto de disputa com as Filipinas – uma disputa inexistente antes de Washington pressionar e subornar o governo de Manilha e o Pentágono ter lançado uma campanha de propaganda chamada “liberdade de navegação”.

O que significa realmente isso? Significa liberdade para navios de guerra americanos patrulharem e dominarem as águas costeiras da China. Imagine-se a reacção americana se navios de guerra chineses fizessem o mesmo ao largo da costa da Califórnia.

Fiz um filme chamado «A guerra que não se vê» (”The War You Don’t See”), onde entrevisto notáveis jornalistas da América e Grã-Bretanha, como Dan Rather da CBS, Rageh Omar da BBC, David Rose do Observer.

Todos disseram que os jornalistas deveriam ter feito o seu trabalho e questionado a propaganda de que Saddam Hussein possuía armas de destruição massiva; se as mentiras de George W. Bush e Tony Blair não tivessem sido ampliadas e difundidas pelos jornalistas, a invasão de 2003 do Iraque poderia não ter acontecido e centenas de milhares de homens, mulheres e crianças ainda hoje estariam vivos.

A propaganda que prepara o terreno para uma guerra contra a Rússia e/ou a China em princípio não é diferente. Que eu saiba, nenhum jornalista nos media de referência do ocidente – um equivalente de Dan Rather, digamos – pergunta por que razão a China está a construir pistas de aterragem no Mar do Sul da China.

A resposta é claramente óbvia. Os Estados Unidos estão a cercar a China com uma rede de bases, com mísseis balísticos, grupos de guerra e bombardeiros armados com ogivas nucleares.

O arco letal estende-se desde a Austrália até às ilhas do Pacífico, às Mariana e às Marshalls e Guam, até as Filipinas, Tailândia, Okinawa, Coreia e através da Eurásia para o Afeganistão e a Índia. A América tem um nó corrediço em torno do pescoço da China. Isto não é notícia. Os media silenciam, é guerra dos media.

Em 2015, em alto segredo, os EUA e a Austrália encenaram o maior exercício militar aéreo e marítimo da história recente, conhecido como Talisman Sabre. Seu objectivo era ensaiar o Plano de Batalha Ar-Mar, bloqueando rotas marítimas – tais como os Estreitos de Malaca e os Estreitos Lombok – que dificultam o acesso da China ao petróleo, gás e outras matérias-primas vitais do Médio Oriente e África.

No circo conhecido por campanha presidencial americana, Donald Trump está a ser apresentado como um lunático, um fascista. Ele certamente é odioso; mas também é uma figura odiada pelos media. Isto só por si deveria despertar nosso cepticismo.

As visões de Trump sobre migração são grotescas, mas não mais grotescas do que aquelas de David Cameron. Não é Trump quem é o Grande Deportador dos Estados Unidos, mas o vencedor do Prémio Nobel da Paz, Barack Obama.

Segundo um assombroso comentador liberal, Trump está «a desencadear as forças negras da violência» nos Estados Unidos. Desencadear?

Este é o país onde crianças pequenas alvejam as mães e a polícia trava uma guerra assassina contra americanos. Este é o país que atacou e procurou derrubar mais de 50 governos, muitos democracias, e bombardeou desde a Ásia até o Médio Oriente, causando a morte e privações a milhões de pessoas.

Nenhum país pode igualar este registo sistémico de violência. A maior parte das guerras da América (quase todas elas contra países indefesos) foram lançadas não por presidentes republicanos mais sim por democratas liberais: Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama.

Em 1947, uma série de directivas do National Security Council descreveu o objectivo supremo da política externa americana como «um mundo feito substancialmente sobre a própria imagem [da América]». Esta ideologia era o americanismo messiânico. Éramos todos americanos. Se não, os heréticos seriam convertidos, subvertidos, subornados, enlameados ou esmagados.

Donald Trump é um sintoma disto, mas também é independente. Ele diz que a invasão do Iraque foi um crime; ele não quer ir à guerra com a Rússia e a China. O perigo para os restantes de nós não é Trump, mas sim Hillary Clinton. Ela não é independente. Ela corporifica a resiliência e violência de um sistema cujo louvado “excepcionalismo” é totalitário com uma ocasional cara liberal.

Quando o dia da eleição presidencial estiver mais próximo, Clinton será louvada como a primeira mulher presidente, pouco importando os seus crimes e mentiras – assim como Barack foi louvado como o primeiro presidente negro e liberais engoliram suas tolices acerca da «esperança». E a verborreia prossegue.

Descrito pelo colunista do Guardian, Owen Jones, como «divertido, encantador, com uma serenidade que engana praticamente todos os outros políticos», Obama a seguir enviava drones para massacrar 150 pessoas na Somália. Ele mata pessoas habitualmente às terça-feiras, segundo o New York Times, quando lhe é entregue uma lista de candidatos à morte por drone. Tão sereno.

Na campanha presidencial de 2008 Hillary Clinton ameaçou «destruir totalmente» as armas nucleares do Irão. Como secretária de Estado de Obama, ela participou no derrube do governo democrático de Honduras. A sua contribuição para a destruição da Líbia em 2011 foi quase jubilosa. Quando o líder líbio, coronel Gaddafi, foi publicamente sodomizado com uma faca – um assassínio tornado possível pela logística americana – Clinton exultou com a sua morte: «Nós viemos, nós vimos, ele morreu».

Uma das mais próximas aliadas de Clinton é Madeleine Albright, a antiga secretária de Estado, a qual atacou as jovens por não apoiarem «Hillary». Esta é a mesma Madeleine Albright que, de modo infame, celebrou na TV a morte de meio milhão de crianças iraquianas como tendo «valido a pena».

Entre os maiores apoiantes de Clinton estão o lobby de Israel e as companhias de armas que alimentam a violência no Médio Oriente. Ela e seu marido receberam uma fortuna de Wall Street. E apesar disso ela está prestes a ser consagrada como a candidata das mulheres, para despedir o malvado Trump, o demónio oficial. Os seus apoiantes incluem destacadas feministas: as comadres de Gloria Steinem nos EUA e de Anne Summers na Austrália.

Uma geração atrás, um culto pós moderno agora conhecido como «política da identidade» impediu muitas pessoas inteligentes, de orientação liberal, de examinarem as causas e indivíduos que apoiavam, tais como a falsidade de Obama e Clinton; tais como falsos movimentos progressistas como o Syriza na Grécia, que traiu o povo daquele país e se aliou aos seus inimigos.

A auto-absorção, uma espécie de “eu-ismo”, tornou-se o novo espírito da época entre privilegiados de sociedades ocidentais e assinalou a morte de grandes movimentos colectivos contra a guerra, a injustiça social, a desigualdade, o racismo e o sexismo.

Hoje, o longo sono pode estar a acabar. Os jovens estão a empolgar-se outra vez. Gradualmente. Os milhares na Grã-Bretanha que apoiam Jeremy Corbyn como líder trabalhista fazem parte deste despertar – como aqueles que se alinham para apoiar o senador Bernie Sanders.

Na semana passada, na Grã-Bretanha, o mais próximo aliado de Jeremy Corby, o seu tesoureiro sombra, John McDonnell, comprometeu um governo trabalhista a liquidar as dívidas de bancos piratas e, com efeito, a continuar a chamada austeridade.

Nos EUA, Bernie Sanders prometeu apoiar Clinton se ou quando elas fosse nomeada. Também ele tem votado pela utilização da violência da América contra países quando pensa que isso é «correcto». Ele diz que Obama fez «um grande trabalho».

Na Austrália, há uma espécie de política mortuário, na qual tediosos jogos parlamentares são jogados nos media enquanto refugiados e indígenas são perseguidos e a desigualdade aumenta, juntamente com o perigo de guerra. O governo de Malcolm Turnbull acaba de anunciar um chamado orçamento de defesa de 195 mil milhões de dólares, que é mais um impulso para a guerra. Não houve debate. Silêncio.

O que aconteceu à grande tradição de acção popular directa, não acolhida por partidos? Onde está a coragem, imaginação e compromisso exigidos para começar a longa jornada rumo a um mundo melhor, justo e pacífico? Onde estão os dissidentes na arte, nos filmes, no teatro, na literatura?

Onde estão aqueles que estilhaçarão o silêncio? Ou aguardaremos até que o primeiro míssil nuclear seja disparado?

Versão editada de um discurso de John Pilger na Universidade de Sydney, intitulado “Uma guerra mundial começou”.

O original encontra-se em https://www.rt.com/op-edge/336785-world-war-break-silence/

Tradução revista por odiario.info

http://www.odiario.info/?p=3966

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