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“Refazer o Médio Oriente”- o super-guantánamo- americano

A expansão do império americano através do norte de África e Médio Oriente foi montada com o armamento e financiamento de estados-vassalos para servirem de postos avançados. O arco de bases militares imperiais americanas que se estende do Egipto, através de Israel, da Turquia, da Jordânia, do Iémen, do Iraque, do Bahrain e da Arábia Saudita, está protegido por uma série de campos prisionais contendo dezenas de milhares de prisioneiros políticos.

James Petras

ODiario.info - 7 de Maio, 2014

http://www.odiario.info/?p=3268

Durante o início do seu primeiro mandato, o presidente Obama prometeu “refazer o Médio Oriente numa região de prosperidade e liberdade”. Seis anos depois, a realidade é totalmente contrária: o Médio Oriente é governado por regimes despóticos cujas prisões transbordam de presos políticos. A grande maioria dos activistas pró-democracia que foram presos foram submetidos a duras torturas e cumprem longas penas de prisão. Os governantes não têm legitimidade, uma vez que tomaram o poder e o mantiveram através de um estado policial centralizado e da repressão militar. Decisivas para a construção da série de prisões desde o norte de África até aos estados do Golfo são a intervenção directa de militares americanos e da CIA, os fornecimentos maciços de armas, as bases militares, as missões de treino e as Forças Especiais.

Prosseguiremos documentando a escala e o alcance da repressão política em cada estado policial apoiado pelos EUA. Descrevemos depois a escala e alcance da ajuda militar americana de apoio a esse “refazer do Médio Oriente” numa série de prisões políticas conduzidas pelo e para o império dos EUA.

Os países e regimes incluem o Egipto, Israel, Arábia Saudita, Bahrain, Iraque, Iémen, Jordânia e Turquia, todos eles promotores e defensores dos interesses imperiais dos EUA contra a maioria pró-democracia representada pelos seus movimentos sociopolíticos independentes.

Egipto: Estado vassalo estratégico

Desde há muito estado vassalo e o maior país árabe do Médio Oriente, a actual ditadura militar do Egipto que resultou de um golpe em Julho de 2013 lançou uma onda de repressão selvagem a seguir à tomada do poder. De acordo com o Centro Egípcio dos Direitos Sociais e Económicos, foram presos entre Julho e Dezembro de 2013 21.317 manifestantes pró-democracia. Em Abril de 2014, foram encarcerados mais de 16.000 presos políticos. Os julgamentos sumários por tribunais ad-hoc resultaram em penas de morte para centenas e longas penas de prisão para a maior parte. O regime de Obama recusou chamar golpe ao derrube militar do governo Morsi democraticamente eleito, para poder continuar a fornecer ajuda militar à junta. Em troca, a ditadura militar continua a apoiar o bloqueio israelita a Gaza e a apoiar as operações militares dos EUA no Médio Oriente.

Israel: o maior carcereiro da região

Israel, cujos apoiantes nos EUA designam a “única democracia no Médio Oriente”, é de facto o maior carcereiro na região.

De acordo com o grupo israelita de direitos humanos B’Tselm, entre 1967 e Dezembro de 2012, foram feitos prisioneiros 800.000 palestinianos, 20% da população. Mais de 100.000 foram mantidos em “detenção administrativa” sem acusação ou julgamento. Quase todos foram torturados e brutalizados. Israel tem actualmente 4.881 prisioneiros políticos nas cadeias. O que faz do estado judeu escolhido por Deus o primeiro carcereiro, contudo, é a manutenção de 1,82 milhões de palestinianos que vivem em Gaza numa virtual prisão a céu aberto. Israel condiciona viagens, comércio, construção, produção e culturas através de bloqueios e policiamentos aéreo, marítimo e terrestre. Além disso, 2,7 milhões de palestinianos dos Territórios Ocupados (Margem Ocidental) estão cercados por muros como os das prisões, sujeitos a incursões militares diárias, detenções arbitrárias e assaltos violentos pelas forças armadas israelitas e pelos colonos israelitas vigilantes empenhados no perpétuo despojar dos habitantes palestinianos.

Arábia Saudita: monarquia absolutista

De acordo com o “refazer do Médio Oriente” do presidente Obama, a Arábia Saudita figura como o “aliado mais fiel no mundo árabe”. Como estado vassalo leal, as suas prisões transbordam de dissidentes pró-democracia encarcerados por procurarem eleições livres, liberdades civis e o fim de políticas misóginas. De acordo com a Comissão de Direitos Humanos Islâmicos, os sauditas detêm 30.000 presos políticos, a maior parte arbitrariamente detidos sem acusação ou julgamento.

A ditadura saudita desempenha um papel principal no financiamento dos regimes de estados policiais na região. Despejaram 15 mil milhões de dólares nos cofres da junta do Egipto a seguir ao golpe militar, como recompensa pela purga sangrenta em massa dos eleitos e seus apoiantes pró-democracia. A Arábia Saudita desempenha um importante papel no apoio ao domínio de Washington, financiando e armando “regimes carcereiros” no Paquistão, Iémen, Bahrain, Jordânia e Egipto.

Bahrain: pequeno país – muitas prisões

De acordo com o respeitado Centro de Direitos Humanos local, o Bahrain possui a duvidosa distinção de ser o primeiro país globalmente em número de presos políticos per capita. Segundo o Economist (4/2/14), o Bahrain tem 4.000 presos políticos para uma população de 750.000. De acordo com o Pentágono, a ditadura absolutista do Bahrain desempenha um papel vital no proporcionar aos EUA bases aéreas e marítimas para o ataque ao Iraque, ao Irão e ao Afeganistão. A maioria dos dissidentes pró-democracia estão presos por procurarem acabar com a vassalagem, a autocracia e o servilismo perante os interesses imperiais dos EUA e da ditadura saudita.

Iraque: Abu Ghraib com caracteres árabes

Tendo começado na invasão e ocupação americanas do Iraque em 2003 e prosseguido com o seu vassalo primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, dezenas de milhares de cidadãos iraquianos foram torturados, encarcerados e assassinados. A junta iraquiana no poder continuou a apoiar-se nas tropas e forças especiais dos EUA e a envolver-se no mesmo tipo de “varredelas” militares e policiais que aniquilam qualquer pretensão democrática. Al-Maliki apoia-se em ramos especiais da sua polícia secreta, a notória Brigada 56, para assaltar comunidades da oposição e baluartes dissidentes. Quer o regime xiita, quer a oposição sunita se envolvem em contínuas lutas terroristas. Ambos serviram de colaboradores próximos de Washington em momentos diferentes.

A lista diária de mortos é da ordem das centenas. O regime de Al- Maliki assenhoreou-se dos centros de tortura (incluindo Abu Ghraib) e das técnicas e prisões antes chefiadas e conduzidas pelos EUA e retiveram os conselheiros americanos das “Forças Especiais” para a supervisão das batidas policiais aos críticos dos direitos humanos, sindicalistas e dissidentes democratas.

Iémen: satélite do grupo EUA-Arábia Saudita

O Iémen foi governado durante décadas por ditadores clientes dos EUA e Arábia Saudita. O governo autocrático de Ali Abdullah Saleh foi acompanhado da prisão e tortura de milhares de activistas pró-democracia, tanto seculares como religiosos, do mesmo modo que serviu de centro clandestino de tortura para dissidentes políticos raptados e transportados pela CIA no seu chamado programa de “rendição”. Em 2011, apesar da prolongada e violenta repressão pelo regime de Saleh apoiado pelos EUA, explodiu uma rebelião de massas ameaçando a existência do Estado e as ligações aos regimes americano e saudita. Para preservarem o seu domínio e as ligações aos militares, Washington e a Arábia Saudita orquestraram um “rearranjo” do regime: fizeram-se eleições manipuladas e tomou o poder um tal Abdo Rabbo Mansour Hadi, leal amigo de Saleh e criado de Washington. Hadi continuou onde Saleh tinha ficado: raptos, tortura e assassínio de contestantes pró-democracia. Washington optou por chamar ao regime de Hadi “uma transição para a democracia”. De acordo com o Yemen Times (4/5/14), mais de 3.000 presos políticos enchem as prisões do Iémen. “Democracia de cárcere” serve para consolidar a presença militar americana na península da Arábia.

Jordânia: um Estado policial cliente de longa duração

Durante mais de meio século, três gerações de monarcas absolutistas no trono da Jordânia estiveram na lista de pagamentos da CIA e serviram os interesses dos EUA no Médio Oriente. Os governantes vassalos da Jordânia brutalizam os nacionalistas árabes e os movimentos de resistência palestinianos e assinaram um chamado “acordo de paz” com Israel para reprimirem qualquer apoio através da fronteira da Palestina e proporcionam bases militares de apoio ao treino, armamento e financiamento dos mercenários que invadem a Síria pelos EUA, Arábia Saudita e UE.

A corrupta monarquia e a sua íntima oligarquia controlam uma economia perpetuamente dependente de subsídios estrangeiros para se manter à tona: desemprego acima dos 25% e metade da população subsistindo na pobreza. O regime encarcerou milhares de opositores pacíficos. De acordo com um recente relatório da Amnistia Internacional (Jordan 2013), a ditadura do rei Abdullah “prendeu milhares sem acusação”. A monarquia de cárcere desempenha um papel central fortalecendo a construção do império americano no Médio Oriente e facilitando a apropriação de terra por Israel na Palestina.

Turquia: bastião da NATO e democracia de cárcere

No reinado do auto-intitulado “Partido Justiça e Desenvolvimento” liderado por Tayyip Erdogan, a Turquia transformou-se numa importante base operacional militar para a invasão da Síria apoiada pela NATO. Erdogan tem tido as suas diferenças com os EUA, especialmente o esfriar de relações da Turquia com Israel sobre a apreensão pela última de um navio turco em águas internacionais e o assassínio de nove activistas humanitários turcos desarmados. Mas, à medida que a Turquia se tornou mais dependente dos fluxos internacionais de capital e da integração em guerras internacionais da NATO, Erdogan tornou-se mais autoritário. Enfrentando desafios populares em larga escala à sua privatização arbitrária de espaços públicos e a despejos em bairros da classe trabalhadora, Erdogan lançou uma purga da sociedade civil, dos movimentos de classe e das instituições do Estado. Em face das manifestações pró-democracia de grande dimensão no verão de 2013, Erdogan desencadeou um assalto selvagem aos dissidentes. De acordo com os grupos de direitos humanos, mais de 5.000 pessoas foram presas e 8.000 feridos durante os protestos no Parque Gezi. Antes, Erdogan estabeleceu “Tribunais Autorizados Especiais” que organizaram julgamentos políticos de fachada baseados em provas falsificadas que facilitavam a detenção e prisão de centenas de oficiais militares, activistas partidários, sindicalistas, advogados de direitos humanos e jornalistas, em particular os críticos do seu apoio à guerra contra a Síria. Apesar da retórica conciliatória, as prisões de Erdogan encerram vários milhares de dissidentes curdos, incluindo ativistas eleitorais e juristas (Global Views 10/17/12).

Enquanto Erdogan serviu como âncora islamita leal e capaz contra os movimentos populares democráticos e nacionalistas no Médio Oriente, a sua procura de maior influência turca na região levou os EUA a aprofundar os laços políticos com o movimento Gulenista mais submisso, pró- Washington e pró- Israel, infiltrado no aparelho de Estado, no comércio e no ensino. Este movimento adoptou uma estratégia permeacionista: sanear os adversários na sua marcha tranquila para o poder por dentro do Estado. Os EUA apoiam-se ainda na “democracia de cárcere” de Erdogan para reprimir movimentos anti-imperialistas na Turquia, para servir de âncora militar para a guerra contra a Síria, para apoiar sanções contra o Irão e para apoiar o regime pró-NATO de Maliki no Iraque.

O super-guantánamo* do Médio Oriente e a ajuda militar americana

Os regimes de Estado policial e a cultura política autoritária de longo prazo no mundo árabe são um produto do apoio militar de longo prazo dos EUA aos governos despóticos. A ausência de democracia é uma condição necessária para a expansão e o avanço da presença militar imperial dos EUA na região.

Um pequeno exército de universitários, “peritos”, jornalistas e pânditas islamofóbicos dos media americanos ignoram totalmente o papel dos EUA na promoção, apoio e reforço de ditadores reinantes e na repressão de movimentos de massas profundamente democráticos que têm surgido ao longo de um grande período de tempo. Tendo como pontas de lança escribas e académicos desde sempre pró-Israel de universidades da Ivy League no Médio Oriente, estes propagandistas clamam que as ditaduras árabes são um produto da “cultura islâmica” ou da “personalidade autoritária dos árabes” em busca de um “homem forte” que os guie e governe. Ignorando ou distorcendo a história das lutas da classe trabalhadora e os protestos e posições pró-democracia em todos os principais países árabes, estes intelectuais justificam as ligações americanas às ditaduras como “política realista” dadas as “opções disponíveis”. Onde quer que a real democracia comece a emergir e onde os direitos políticos comecem a ser exercidos, Washington promove golpes e intervém para apoiar o aparelho repressivo estatal (Bahrain 2011-14, Iémen 2011 a 2014, Egipto 2013, Jordânia 2012, entre muitos outros casos). Enquanto a maioria dos “peritos” sobre o Médio Oriente responsabilizam os cidadãos árabes pelos regimes autoritários, ignoram completamente e encobrem a maioria racista de Israel que apoia solidamente o encarceramento e tortura de centenas de milhares de palestinianos pró-democracia.

Perceber o super-guantánamo* do Médio Oriente requer uma discussão da “política de ajuda” que é central para a sustentação dos “regimes carcereiros”.

A ajuda dos EUA ao Egipto: milhares de milhões para ditadores

O Estado policial egípcio é uma âncora do “arco imperial” dos EUA desde o norte de África até ao Médio Oriente. O Egipto esteve activamente empenhado na desestabilização da Líbia, do Sudão, do Líbano, da Síria e colaborou com o desalojamento dos palestinianos por Israel. A ditadura de Mubarak recebeu de Washington 2 mil milhões de dólares por ano – cerca de 65 mil milhões para os seus serviços imperiais. A ajuda dos EUA reforçou a sua capacidade para encarcerar e torturar ativistas pró-democracia e sindicalistas. Washington prosseguiu o apoio militar ao regime ditatorial depois do golpe militar contra o primeiro governo democraticamente eleito do Egipto na ordem de 1,55 mil milhões de dólares para 2014. Apesar dos “sinais de preocupação” pelo assassínio de milhares de manifestantes pró-democracia pelo novo homem forte militar, general Abdul Fattah al-Sisi, não houve qualquer corte no financiamento para o chamado “contra-terrorismo” e “segurança”. Para continuar a financiar a ditadura sob legislação do Congresso dos EUA, Washington recusou caracterizar a tomada violenta do poder como golpe, referindo-se a ela como uma “transição para a democracia”. O papel chave do Egipto na política externa dos EUA é a protecção do flanco ocidental de Israel. A ajuda dos EUA ao Egipto é produto da pressão e influência da configuração de poder sionista no Congresso e na Casa Branca. A ajuda dos EUA está dependente do “policiamento” da fronteira de Gaza pelo Egipto, garantindo que o bloqueio por Israel é efectivo. A Casa Branca apoia a repressão pelo Cairo da maioria nacionalista e anticolonial dos egípcios contrária ao desalojamento dos palestinianos. Uma vez que são os interesses israelitas a definir a política externa dos EUA no Médio Oriente, o financiamento por Washington da ditadura carcereira do Egipto está de acordo com a estratégia sionista de Washington.

Israel: o pivot americano no Médio Oriente

A maior parte dos especialistas independentes e conhecedores concordam que a política dos EUA no Médio Oriente é largamente ditada por uma multidão de fiéis sionistas que ocupam posições-chave de tomada de decisão no Tesouro, no Departamento de Estado, no Pentágono e no Comércio, assim como pelo domínio do Congresso pelos presidentes das 52 maiores organizações americano-judaicas e respectivos 171.000 ativistas pagos a tempo inteiro. Enquanto existe alguma verdade no que alguns críticos citam como divergência entre o “real interesse nacional” dos EUA e as ambições coloniais de Israel, o facto é que os dirigentes dos EUA em Washington entendem haver convergência entre o domínio imperial e o militarismo israelita. Na verdade, um Egipto submisso serve os interesses imperiais mais vastos dos EUA e os interesses coloniais de Israel. A guerra de Israel no Líbano contra o movimento anti-imperialista Hezbollah serviu tanto os esforços dos EUA para instalarem um cliente dócil, como os esforços de Israel para destruírem um partidário da autodeterminação palestiniana. A divergência de Washington com Israel sobre o despojamento de todos os palestinianos por Israel vai contra o interesse de Washington num mini-estado palestiniano governado por funcionários árabes neocoloniais. Em resultado da influência sionista, Israel é o maior beneficiário per capita de ajuda americana no mundo, apesar de possuir um nível de vida mais elevado do que 60% dos cidadãos americanos. Entre 1985-2014, Israel recebeu mais de 100 mil milhões de dólares, dos quais 70% para fins militares, incluindo a mais avançada alta tecnologia sobre armas. Israel, que é o país com o record mundial de presos políticos e ataques militares contra países vizinhos nos últimos quarenta anos, tem também o record de ajuda militar americana. Israel, como primeira “democracia carcereira” é um elo chave no super-guantánamo* que se estende do norte de África até aos estados do Golfo.

Arábia Saudita

A Arábia Saudita compete com Israel como centro de encarceramento de dissidentes pró-democracia. Os sauditas reciclam centenas de milhares de milhões de petro-rendas através da Wall Street, enriquecendo déspotas sauditas locais e banqueiros de investimento pró-israelitas no estrangeiro. A convergência saudis-EUA-Israel é mais do que circunstancial. Partilham interesses militares na guerra contra os movimentos árabes pró-independência e pró-democracia através do Médio Oriente. A Arábia Saudita alberga a maior base militar dos EUA e as maiores operações de espionagem no Golfo. Apoiou a invasão do Iraque. Financia milhares de mercenários islâmicos na guerra por procuração dos EUA-NATO contra a Síria. Invadiu o Bahrain para esmagar o movimento pró-democracia. Intervém com Washington em apoio ao estado policial do Iémen. É o maior e mais lucrativo mercado para o complexo militar-industrial dos EUA. As vendas militares dos EUA entre 1951-2006 totalizaram 80 mil milhões de dólares. Em Outubro de 2010, assinou a compra de 60,5 mil milhões de armas e serviços aos EUA.

Bahrain: um porta-aviões dos EUA com nome de país

O Bahrain serve de base naval da 5ª Frota dos EUA e é uma base operacional para atacar o Irão. Tem estado ao serviço da ocupação do Afeganistão e do controle americano das rotas de transporte marítimo do petróleo. A ditadura de Al-Khalifa está extremamente isolada, é altamente impopular e enfrenta constante pressão da maioria pró-democracia. Para amparar os governantes seus vassalos, Washington aumentou as vendas militares ao pequeno estado de 400 milhões entre 1993-2000 para 1400 milhões de dólares na década seguinte. Washington aumentou as vendas e o programa de treino militar na proporção directa do aumento do descontentamento democrático, resultando no aumento geométrico do número de presos políticos.

Iraque: guerra, ocupação e os campos da morte de uma democracia de cárcere

A invasão americana e ocupação do Iraque levaram à matança de cerca de 1,5 milhões de iraquianos (a maior parte civis, não combatentes) com um custo de 1,5 biliões (milhões de milhões) de dólares e 4.801 mortos militares americanos. Em 2006, as “eleições” preparadas pelos EUA levaram à instalação do regime de Maliki, suportado pelas armas, por mercenários, por conselheiros e pelas bases americanas. De acordo com um estudo recente para o Gabinete de Investigação do Congresso (Fevereiro de 2014) por Kenneth Kilzman, há 16.000 militares e “empreiteiros” americanos actualmente no Iraque. Mais de 3500 empreiteiros militares americanos no Gabinete de Cooperação de Segurança dão apoio ao estado policial corrupto de Maliki. A democracia de cárcere foi abastecida com mísseis e drones americanos e mais de 10 mil milhões de dólares de assistência militar, o que inclui 2,5 mil milhões de ajuda e 7,9 mil milhões de vendas entre 2005-2013. Para 2014-2015, Malaki pediu 15 mil milhões de dólares em armas, incluindo 36 aviões de combate americanos F-16 e grande número de helicópteros de ataque Apache. Em 2013, o regime de Malaki registou 8.000 mortes políticas resultantes da guerra interna.

O Iraque é um centro crucial para o controle americano do petróleo e do Golfo e como plataforma de lançamento para atacar o Irão. Enquanto Maliki faz “gestos” para o Irão, o seu papel como ligação avançada no gulag imperial dos EUA define a sua “função” real na região do Golfo.

Iémen: o posto avançado militar do deserto para o super-guantánamo* americano

O Iémen é um dispendioso posto avançado militar para o despotismo saudita e para o poder americano na península das Arábia. Segundo o estudo “Iémen: Bases e Relações com os EUA” de Jeremy Sharp para o Serviço de Investigação do Congresso (2014), os EUA forneceram 1,3 mil milhões de dólares de ajuda militar ao Iémen entre 2009-2014. A Arábia Saudita doou 3,2 mil milhões de dólares em 2012 para apoiar a ditadura de Saleh perante um levantamento anti-ditatorial popular de massas. Washington maquinou uma transferência de poder de Saleh para o “Presidente” Hadi e assegurou a sua continuidade duplicando a ajuda militar para manter as prisões cheias e a resistência em cheque. De acordo com o New York Times (31/6/2013), Hadi era um “continuador do ditador Saleh”. A continuidade da democracia de cárcere no Iémen é uma ligação crucial entre o eixo Egipto-Israel-Jordânia e o super-guantánamo* imperial Bahrain-Arábia Saudita.

Jordânia: eterno vassalo e monarquia mendicante

A monarquia despótica da Jordânia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de meio século. Serviu recentemente como centro de tortura de vítimas raptadas e capturadas pelas Forças Especiais dos EUA envolvidas no programa “rendição”. A Jordânia colaborou com Israel no assalto e prisão de palestinianos envolvidos na luta pela liberdade. Actualmente, a Jordânia com a Turquia servem para treino e depósito de armas para os terroristas mercenários que invadem a Síria apoiados pela NATO. Graças à sua colaboração com Israel, Washington e a NATO, a corrupta monarquia de cárcere recebe ajuda militar e económica de larga escala e a longo termo. A monarquia e a sua extensa rede de patifes, carcereiros e família, rapam dezenas de milhões de dólares de ajuda externa, lavados em contas estrangeiras em Londres, na Suíça, no Dubai e em Nova Iorque. Segundo o relatório do Serviço de Investigação do Congresso (27 Janeiro 20114), a ajuda americana à ditadura real jordana atinge 660 milhões de dólares por ano. Uma ajuda militar adicional de 150 milhões foi canalizada para o regime com o desencadear da intervenção da NATO na Síria. O fundo foi destinado a aumentar a infra-estrutura à volta da fronteira Jordânia-Síria. Além disso, a Jordânia serve de principal conduta de armas para os terroristas que atacam a Síria: 340 milhões de dólares para “contingências no estrangeiro” são provavelmente encaminhados através de Amman para armar os terroristas que invadem a Síria. Em Outubro de 2012, a Jordânia assinou acordos com os EUA permitindo que um grande contingente de Forças Especiais estabelecesse campos de aviação e bases para fornecimento e armamento dos terroristas.

Turquia: Estado vassalo leal com ambições regionais

Como baluarte militar da NATO a sul, na fronteira da Rússia, a Turquia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de 66 anos. De acordo com o estudo recente de James Zanotti “Cooperação Turquia-EUA na Defesa: Perspectivas e Desafios” (Serviço de Investigação do Congresso, 8 Abril 2011), em troca do apoio ao poder militar da “democracia de cárcere” da Turquia, os EUA asseguraram uma presença militar importante, incluindo uma grande base aérea em Incirlik, um grande centro operacional abrigando 1800 militares americanos. A Turquia colaborou com a invasão e ocupação americanas do Afeganistão e apoiou o bombardeamento da Líbia pela NATO. Hoje, a Turquia é o centro militar operacional mais importante para os terroristas jihadistas que invadem a Síria. Apesar das periódicas e demagógicas pretensões nacionalistas do presidente Erdogan, os construtores do império dos EUA continuam a ter acesso às bases turcas e a corredores de transporte para as suas guerras, ocupações e intervenções no Médio Oriente e na Ásia central e do sul. Em troca, os EUA instalaram sistemas de mísseis defensivos e aumentaram largamente as vendas de armas pela chamada “assistência de segurança”. Entre 2006-2009, as vendas militares dos EUA ultrapassaram 22 mil milhões de dólares. Em 2013-14, as tensões entre a Turquia e os EUA aumentaram quando Erdogan começou a sanear o Estado de gulenistas, uma quinta-coluna apoiada pelos EUA que infiltrava o estado turco e usava as suas posições para apoiar uma colaboração mais próxima com os interesses militares de Israel e dos EUA.

Conclusão

A expansão do império americano através do norte de África e Médio Oriente foi montada com o armamento e financiamento de estados-vassalos para servirem de postos avançados do império. Estes regimes vassalos, governados por monarquias ditatoriais e governantes autoritários civis e militares, apoiam-se na força e na violência para sustentar o seu mando. Os EUA forneceram armas, conselheiros e financiamento que lhes permitiu dominarem. O arco de bases militares imperiais americanas que se estende do Egipto, através de Israel, da Turquia, da Jordânia, do Iémen, do Iraque, do Bahrain e da Arábia Saudita, está protegido por uma série de campos prisionais contendo dezenas de milhares de prisioneiros políticos.

O empenhamento americano e a sua penetração e presença na região são acompanhados por uma série de democracias carcereiras e ditaduras. Ao contrário dos pânditas políticos liberais e conservadores e dos académicos, a política americana durante mais de 50 anos procurou activamente, instalou e protegeu tiranos sanguinários que pilharam o tesouro público, concentraram riqueza, entregaram a soberania e subdesenvolveram as suas economias.

Os académicos pró-Israel em prestigiadas universidades americanas têm sistematicamente distorcido as bases estruturais da violência, do autoritarismo e da corrupção no mundo islâmico, responsabilizando as vítimas, os povos turco e árabe, e ignorando o papel dos construtores do império americano no financiamento e no armamento de governos autoritários civis e militares e de monarquias absolutistas e respectivos militares, funcionários judiciais e policiais corruptos.

Ao contrário dos enganadores volumes publicados pelas prestigiosas imprensas universitárias e escritos por altamente respeitados propagandistas políticos pró-Israel, o refazer do Médio Oriente depende da força das correntes democráticas na sociedade islâmica. Elas encontram-se nos movimentos estudantis, entre os sindicalistas e os desempregados, nos intelectuais nacionalistas e nas forças seculares e islâmicas que se opõem ao Império dos EUA por razões muito práticas e óbvias. Junto com Israel, os EUA são os principais organizadores da vasta cadeia de campos prisionais políticos que destroem as mais criativas e dinâmicas forças na região. Mais vassalagem árabe provoca a explosão periódica da vibrante cultura e movimento democráticos, embora infelizmente também resulte em maior ajuda militar e presença dos EUA. O verdadeiro choque de civilizações é entre as aspirações democráticas das classes populares orientais e o profundamente imbuído autoritarismo do imperialismo euro-americano.

*Nota do tradutor: O Autor usa de forma infeliz o termo “gulag” para designar o carácter concentracionário da região, palco de ditaduras sanguinárias protegidas pelos EUA e suas aliadas, onde a luta pela democracia é barbaramente reprimida, não obstante toda a retórica da propaganda “democrateira” que acompanha as intervenções imperialistas na região. Símbolo por símbolo, e na convicção de que é respeitado o sentido que o autor imprime à sua análise, em alternativa e com maior propriedade “gulag” foi substituído por “super-guantánamo”. JV

Tradução: Jorge Vasconcelos

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