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Posto de Controle

Ficha Técnica:
Título inglês: Checkpoint (Título original: Machssomim)
Diretor: Yoav Shamir
Ano de produção: 2003
País: Israel
Duração: 80 min


O filme Checkpoint retrata um inferno, inadimissível nos dias de hoje e que mobiliza a consciência de todos pelo fim da injustiça que se abate sobre aquela região”, disse Amir Labaki, organizador do Festival É Tudo Verdade e diretor do Museu da Imagem e do Som/SP (MIS)

NATHANIEL BRAIA - Jornal Hora do Povo, 16/04/2004

http://www.horadopovo.com.br/2004/abril/16-04-04/pag8a.htm

Posto de Controle (Checkpoint) é o nome da mais contundente denúncia da ocupação da Palestina através de um filme já rodado por um israelense. Foi com este filme, premiado no mais recente festival de Amsterdã, que o 9º. Festival de Documentários – É Tudo Verdade foi aberto, com a sala do Cinesesc, em São Paulo, inteiramente lotada e aplaudindo de forma entusiasmada à sua apresentação, no dia 26 de março.

YOAV SHAMIR

O diretor do filme, Yoav Shamir - conhecedor da dramaticidade representada pelos postos policiais-militares, com os quais as tropas israelenses controlam o movimento dos palestinos em seus próprios territórios, sob ocupação, que acima de tudo condensam o absurdo e o conteúdo desumano da mesma – direcionou os 84 minutos de sua filmagem a fotografar o cotidiano destes postos.

É o suficiente. Quando, logo início do filme, um dos soldados israelenses afirma que, “assim que os palestinos chegam aos postos”, eles começam o seu “teatro”, já sabemos que iremos presenciar cenas tensas e revoltantes.

E assim é. Cena após cena, onde cada chegada de um palestino ao posto - só ou junto com integrantes de um grupo – gera um incidente onde o soldado tem um único intuito: humilhar os que se apresentam.

JENIN

Uma mulher que o soldado manda voltar num temporal e que tencionava visitar parentes porque ela “não mora na aldeia”; um palestino que mora perto de Jenin e passa todos os dias para trabalhar na Prefeitura de Nablus mas que desta vez tem que tremer no frio e na chuva enquanto espera que o soldado do posto decida-se revistar sua “autorização”; um ônibus escolar que é parado com todos os seus alunos e seu motorista é informado que não passarão por causa de “um toque de recolher” para, cinco minutos depois, sem nenhuma explicação, receber permissão para seguir viagem.

Incidente a incidente o filme deixa clara a real mensagem que os ocupantes e mentores do apartheid israelense desejam passar: para os palestinos que vivem sob este regime não há regras. O único arbítrio é a vontade do ocupante, ou melhor, o capricho do garoto de 18 a 20 anos – mas já totalmente impregnado da ideologia nazista do apartheid – que ali representa a autoridade máxima a ocupação, com a bandeira estrangeira israelense fincada em centenas de postos na Cisjordânia e Gaza e seus tanques, jipes militares e blindados desfilando para impor a ordem do opressor.

Portanto, para o palestino não há nenhuma regra que garanta sua passagem pelo posto de controle: não é suficiente a “autorização” concedida pelos executores das normas da ocupação; não é suficiente que tenham um comportamento “educado” na hora de apresentá-la; ou que tenha uma justificativa plausível para seu desejo de atravessar o posto para dentro ou para fora da cidade mais próxima; nem mesmo quando esta justificativa seja uma doença aguda ou uma operação...

Quem decide e tem o poder de conceder a passagem é o ocupante, o invasor do alto de sua empáfia, no exercício do “teatro” que busca incutir que “quem manda é o invasor”.

O segundo aspecto que o filme deixa claro – ao lado da empáfia do invasor – é a sua degradação humana. Na medida em que seu papel é infernizar seres humanos, sem dó nenhuma, nem das crianças, mulheres, jovens ou velhos, esta agressão o torna desumano, e diante desse seu embrutecimento o leva a projetar sua própria animalização sob os seres que agride. E, de fato, é assim que mais de um dos soldados se refere aos que agride, aos que a ocupação usurpa seus direitos humanos: “os que estão cercados são animais”.

INJUSTIÇA

Mas - e essa é mais uma grande virtude do filme – a humanidade não perece mesmo nestas amargas circunstâncias, nem mesmo vacila; ao contrário, é aí que ela mais se afirma e vence: os agredidos, os que o agressor pretende humilhar, conscientes da injustiça e de seus direitos milenares erguem a cabeça altivos e desafiam cada arbitrariedade, cada gesto do invasor, cada um representando o povo inteiro; como é o caso de um palestino que desafia e questiona um soldado que o molesta: “esta é a paz de vocês?!”

DESAFIO COLETIVO

Ao lado da revolta com a agressão diuturna dos nazistas, o desafio coletivo esboçado pelo gesto de cada indivíduo do povo palestino diante dos postos de controle aponta para o ocupante uma única saída que lhe caberá, mais cedo ou mais tarde: para fora.

Para fora dos territórios ocupados!

Como disse o organizador do Festival e diretor do Museu da Imagem e do Som/SP (MIS), Amir Labak: “o filme Checkpoint retrata um inferno, inadmissível nos dias de hoje e que mobiliza a consciência de todos pelo fim da injustiça que se abate sobre aquela região”.

O Festival foi encerrado no último dia 4 e teve como filme vencedor, tanto no prêmio internacional, como no nacional, o documentário, de Cao Guimarães, A Alma do Osso.

http://www.horadopovo.com.br/2004/abril/16-04-04/pag8a.htm

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