JOHN PILGER

Jornalista Australiano

Plutocracia.com

John Pilger - (Bondi, área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939) é um repórter. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958, e ao longo dos anos tornou-se famoso pelos livros e documentários que escreveu ou produziu.

Apesar das tentativas de sectores mais conservadores para ridicularizar e desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões na área do jornalismo, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio jornalista inglês do ano, e na área dos dos Direitos Humanos.

No Reino Unido é conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e em Timor-Leste. Pilger trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, no Bangladesh e em Biafra.

Tem um filho, Sam (n. 1973), uma filha, Zoe (n. 1984) e atualmente reside em Londres

http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Pilger

"Sei quando Bush mente. Seus lábios se movem." - John Pilger

JohnPilger.com

John Pilger no Vimeo

DOCUMENTÁRIOS ONLINE EM PORTUGUÊS

A guerra que você não vê (2010)

A guerra contra a democracia (2007)

Roubo de uma nação (2004)

A Palestina continua sendo a questão (2002)

Os novos governantes do mundo (2001)

Guerra por outros meios (1992)

Ano Zero: a morte silenciosa do Camboja (1979)

ARTIGOS ONLINE EM PORTUGUÊS

Romper o silêncio: o assomar de uma guerra mundial - Maio, 2014

O efeito Strangelove: Como somos levados a aceitar uma nova guerra mundial - Abril, 2014

O golpe esquecido - Março, 2014

Guerra "boa", guerra "má" - Fevereiro, 2014

Serão os media apenas uma outra palavra para controle? - Fevereiro, 2014

Na Índia, um espectro assombra todos nós - Janeiro, 2014

Mandela foi-se, mas o apartheid está bem vivo na Austrália - Dezembro, 2013

Novo jogo, nova obsessão, novo inimigo – agora é a China - Outubro, 2013

Razões para optimismo numa era de "realistas" e vigilantes - Setembro, 2013

De Hiroshima à Síria: O inimigo cujo nome não ousamos pronunciar - Setembro, 2013

A verdade sob a mira - Agosto, 2013

A campanha eleitoral australiana é conduzida pela barbárie - Julho, 2013

Como estamos empobrecidos, aburguesados e silenciados – e o que fazer acerca disso - Julho, 2013

O legado manchado de Mandela - Julho, 2013

O PRISM e a ascensão de um novo fascismo - Junho, 2013

Vindo do Iraque, um trágico apelo ao processo dos criminosos de guerra - Maio, 2013

O golpe de Thatcher - Abril, 2013

A nova propaganda é liberal. A nova escravidão é digital - Março, 2013

Mentiras, cortinas de fumo e a vergonhosa difamação de Julian Assange - Fevereiro, 2013

A invasão real da África não está nos noticiários - Janeiro, 2013

Quando Gaza é trucidada outra vez é vital entender o papel histórico da BBC - Novembro, 2012

Blair, guerra, negócios olímpicos e o vislumbre de uma outra Grã-Bretanha - Julho, 2012

Nunca esqueça: a questão é Bradley Manning, não o casamento gay - Maio, 2012

Agora todos vocês são suspeitos. O que está a fazer acerca disso? - Abril, 2012

A guerra mundial contra a democracia - Janeiro, 2012

Com o primado da guerra, a função do jornalismo torna-se tabu - Outubro, 2011

O "Filho de África" reclama as jóias da coroa de todo um continente - Outubro, 2011

A "obtenção" de Assange e o enlamear de uma revolução - Outubro, 2011

Guerra e compras – um extremismo que nunca diz o seu nome - Setembro, 2011

Aclamação para os verdadeiros vitoriosos da revolução de Rupert - Setembro, 2011

A lavar cérebros de um modo polido e profissional - Junho, 2011

Bem-vindo ao mundo violento do Sr. Hopey Changey - Maio, 2011

Como a imprensa Murdoch defende o segredo sujo da Austrália - Maio, 2011

A marchar pelo Anzac no 51º estado dos EUA - Abril, 2011

O ataque euro-americano à Líbia nada tem a ver com 'protecção de civis' - Abril, 2011

Como os chamados guardiões da liberdade de expressão estão a silenciar o mensageiro - Março, 2011

A palavra que não ousamos pronunciar por trás da revolta árabe - Fevereiro, 2011

A revolta egípcia está a vir para casa - Fevereiro, 2011

A guerra à WikiLeaks - Janeiro, 2011

Defendam Assange, não o insultem - Dezembro, 2010

Os fantasmas do Chile não estão a ser resgatados - Outubro, 2010

A BBC está do lado de Murdoch - Setembro, 2010

Desfraldando a bandeira, falsificando as notícias - Setembro, 2010

Porque o Wikileaks deve ser protegido - Agosto, 2010

As mentiras sobre Hiroshima são as mentiras de hoje - Agosto, 2010

Tony Blair deve ser processado - Agosto, 2010

A arte negra da "administração de notícias" - Junho, 2010

A heresia dos gregos dá esperança - Maio, 2010

Belicistas do mundo, uni-vos - Maio, 2010

Tenham uma linda guerra, rapazes - Março, 2010

Bem-vindos à primeira murdocracia mundial - Março, 2010

Ouçam os heróis de Israel - Fevereiro, 2010

Porque razão os Óscares são uma trapaça - Fevereiro, 2010

O sequestro do Haiti - Janeiro, 2010

Boicote a Israel ganha ímpeto - Janeiro, 2010

Bem vindo ao mundo 2010 de Orwell - Dezembro, 2009

A normalizar o crime do século - Dezembro, 2009

Romper o grande silêncio australiano - Novembro, 2009

Uma greve postal na Grã-Bretanha é guerra interna - Outubro, 2009

Guerra é paz, ignorância é força - Outubro, 2009

O jogo da mentira: Tambores de guerra contra o Irão - Outubro, 2009

Um filme farsa devido às suas omissões - Setembro, 2009

Para muitos ingleses, acabou a brincadeira - Setembro, 2009

Lockerbie: Megrahi foi tramado - Setembro, 2009

Livros importantes a fim de combater a nossa "formação" para a guerra - Agosto, 2009

Luto no 4 de Julho - Julho, 2009

O sorriso na cara do tigre - Junho, 2009

Grã-Bretanha: a profundidade da corrupção - Maio, 2009

Os 100 dias de Obama – os loucos conseguiram safar-se - Abril, 2009

Fé fraudulenta e crimes grandiosos - Abril, 2009

A política dos "bollocks" - Fevereiro, 2009

Venham receber as vossas Medalhas da Liberdade - Janeiro, 2009

As boas notícias para 2009, uma lista de desejos - Dezembro, 2008

Cuidado com o "Dia da marmota" de Obama - Dezembro, 2008

Kafka tem um rival - Dezembro, 2008

A "guerra boa" é má - Novembro, 2008

Não acredite no golpe publicitário - Novembro, 2008

Austrália: Novos roubos de terras sob a cobertura de mitos racistas - Outubro, 2008

A diplomacia da mentira - Outubro, 2008

África do Sul: a libertação traída - Outubro, 2008

Um homicida teatro de absurdo - Setembro, 2008

Não esqueçam a Jugoslávia - Agosto, 2008

As mentiras de Hiroshima subsistem - Agosto, 2008

Obama, o príncipe do engodo - Julho, 2008

Como a Grã-Bretanha faz a guerra - Julho, 2008

Do triunfo à tortura - Julho, 2008

Na fonte do medo e da ignorância - Junho, 2008

Na melhor tradição, Obama é um falcão - Junho, 2008

A luta contra o apartheid recomeçou na África do Sul - Abril, 2008

Cumprindo a 'promessa inquebrantável' - Abril, 2008

O império oculto da Austrália - Março, 2008

A dança macabra ritual da democracia estilo USA - Janeiro, 2008

Suharto, o assassino modelo, e os seus amigos - Janeiro, 2008

Como a elite anglo-americana partilha os seus 'valores' - Dezembro, 2007

Sem lágrimas nem remorsos pelos caídos do Iraque - Novembro, 2007

Sicko 2: A destruição do Serviço Nacional de Saúde britânico - Novembro, 2007

Porque eles temem Michael Moore - Outubro, 2007

Minha última conversa com Aung San Suu Kyi - Outubro, 2007

Israel: um importante marco foi ultrapassado - Agosto, 2007

O velho Bill, herói liberal - Agosto, 2007

As bombas de Londres cabem também ao novo primeiro-ministro - Julho, 2007

Os rebeldes no exército britânico combatem a propaganda - Junho, 2007

Aprisionando toda uma nação - Maio, 2007

O mito Kennedy ascende outra vez - Maio, 2007

O Irão pode constituir a maior crise dos tempos modernos - Abril, 2007

Colmatando o fosso entre torturadores e vítimas - Março, 2007

Austrália: o 51º estado dos EUA - Março, 2007

O luto de uma Austrália secreta - Fevereiro, 2007

Irão: uma guerra em preparação - Fevereiro, 2007

Terror e fome em Gaza - Janeiro, 2007

Estabelecendo os limites do jornalismo de invasão - Dezembro, 2006

Saddam: Vamos agora acusar os cúmplices - Novembro, 2006

A doutrina Blair: sangue e dinheiro - Novembro, 2006

Expor o coração apodrecido do império - Outubro, 2006

Demasiado ocupados a manipularem a sua dignidade - Outubro, 2006

Nenhuma notícia é fria - Setembro, 2006

O retorno do povo ao poder - Agosto, 2006

A ameaça real que enfrentamos é Blair - Agosto, 2006

Sangue e esperança - Julho, 2006

Timor Leste: o golpe que o mundo não percebeu - Junho, 2006

Império: guerra e propaganda - Julho, 2006

Cambodja: uma vítima da 'ajuda' - Junho, 2005

 


As mentiras de Hiroshima subsistem

por John Pilger

resistir.info - 6 de Agosto, 2008

http://resistir.info/pilger/pilger_06ago08.html

Quando fui pela primeira vez a Hiroshima, em 1967, a sombra sobre os degraus ainda estava ali. Era quase uma impressão perfeita de um ser humano: pernas inclinadas, costas encurvadas, uma mão ao lado enquanto ela sentava à espera que o banco abrisse. Um quarto de hora após as oito da manhã de 6 de Agosto de 1945, ela e a sua silhueta foram gravadas a fogo no granito. Fixei a sombra por uma hora ou mais, a seguir andei até o rio e encontrei um homem chamado Yukio, cujo tórax ainda estava marcado com o padrão da camisa que usava quando foi lançada a bomba atómica.

Ele e a sua família ainda vivem num barraco desconjuntado no pó de um deserto atómico. Ele descreveu um enorme flash sobre a cidade, "uma luz azulada, algo como um curto-circuito eléctrico", após o qual o vento soprou como um tornado e caiu chuva negra. "Fui lançado sobre o piso e percebi que apenas os talos das minhas flores haviam ficado. Estava tudo quieto e silencioso, e quando levantei havia pessoas nuas, que não diziam nada. Algumas delas não tinham pele ou cabelo. Eu estava certo de estar morto". Nove anos depois, quando voltei a procurá-lo, havia morrido de leucemia.

Na sequência imediata da bomba, as autoridades aliadas de ocupação proibiram qualquer menção ao envenenamento radioactivo e insistiram em que as pessoas haviam sido mortas ou feridas apenas pelo sopro da bomba. Foi a primeira grande mentira. "Nenhuma radioactividade nas ruínas de Hiroshima", dizia a primeira página do New York Times, um clássico da desinformação e da abjecção jornalística, o qual deu ao repórter australiano Wilfred Burchett o furo do século. "Escrevi isto como uma advertência ao mundo", contou Burchett no Daily Express, tendo chegado Hiroshima após uma viagem perigosa, o primeiro correspondente a ousar fazê-lo. Ele descreveu departamentos de hospitais cheios de pessoas sem ferimentos visíveis mas que estavam a morrer daquilo a que chamou "uma praga atómica". Por contar esta verdade, sua credencial de imprensa foi-lhe retirada, ele foi atacado e caluniado – e inocentado.

O bombardeamento atómico de Hiroshima e Nagasaki foi um acto criminoso numa escala colossal. Foi um assassínio em massa premeditado que desencadeou uma arma de criminalidade intrínseca. Por esta razão os seus apologistas procuraram refúgio na mitologia do "boa guerra" final, cujo "banho ético", como a denominou Richard Drayton, permitiu ao ocidente não só expiar seu sangrento passado imperial como promover sessenta anos de guerra predatória, sempre abençoada pela sombra de A Bomba.

A mentira mais duradoura é que a bomba atómica foi lançada no fim da guerra do Pacífico e salvou vidas. "Mesmo sem os ataques de bombardeamento atómico", concluiu o United States Strategic Bombing Survey de 1946, "a supremacia aérea sobre o Japão poderia ter exercido pressão suficiente para levá-lo à rendição incondicional e dispensar a necessidade de invasão. Com base numa investigação pormenorizada de todos os factos, e apoiado pelo testemunho dos líderes japoneses sobreviventes, o inquérito opina que ...o Japão se teria rendido mesmo se a bombas atómicas não tivessem sido lançadas, mesmo se a Rússia não entrasse na guerra e mesmo se nenhuma invasão tivesse sido planeada ou considerada".

Os Arquivos Nacionais em Washington contêm documentos do governo estado-unidense que revelam iniciativas de paz japonesas já em 1943. Nenhuma delas foi seguida. Um telegrama enviado a 5 de Maio de 1945 pelo embaixador alemão em Tóquio e interceptado pelos EUA afasta qualquer dúvida de que os japoneses estavam desesperados para pedir a paz, incluindo "capitulação mesmo que os termos sejam duros". Ao invés disso, o secretário da Guerra do EUA, Henry Stimson, disse ao presidente Truman estar "temeroso" de que a US Air Force deixaria o Japão tão bombardeado que a nova arma não seria capaz de "mostrar a sua força". Posteriormente ele admitiu que "não fora feito qualquer esforço, e nenhum foi considerado seriamente, para alcançar a rendição simplesmente a fim de não ter de utilizar a bomba". Os seus colegas de política externa estavam ansiosos "para amedrontar os russos com a bomba que possuíam de preferência espalhafatosamente". O general Leslie Groves, director do Projecto Manhattan que fabricou a bomba, testemunhou: "Nunca houve qualquer ilusão da minha parte de que a Rússia era o nosso inimigo, e que o projecto fora conduzido nesta base". O dia seguinte a Hiroshima foi apagado, o presidente Truman proclamou a sua satisfação com o "êxito esmagador" do "experimento".

Acredita-se que os Estados Unidos estiveram à beira de utilizar armas nucleares pelo menos três vezes desde 1945. Ao travarem a sua falsa "guerra ao terror", os actuais governos em Washington e Londres declararam-se preparados para efectuar ataques nucleares "antecipativos" ("pre-emptive") contra Estados não nucleares. A cada pancada rumo à meia noite de um Armagedão nuclear, as mentiras justificativas tornam-se mais ultrajantes. O Irão é a actual "ameaça". Mas o Irão não tem armas nucleares e a desinformação de que está a planear um arsenal nuclear provém em grande medida de um desacreditado grupo de oposição iraniano patrocinado pela CIA, o MEK – assim como as mentiras acerca das armas de destruição em massa de Saddam Hussein foram originadas pelo Iraqi National Congress, montado por Washington.

O papel do jornalismo ocidental ao promover este espantalho é crítico. Que o Defence Intelligence Estimate da América diga "com alta confiança" que o Irão abandonou seu programa de armas nucleares em 2003 foi remetido para o buraco da memória. Que o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, nunca tenha ameaçado "varrer Israel do mapa" não tem qualquer interesse. Mas tamanha tem sido a repetição deste "facto" nos media que na sua recente actuação servil perante o parlamento israelense Gordon Brown aludiu a isto quando, mais uma vez, ameaçou o Irão.

Esta progressão de mentiras trouxe-nos uma das mais perigosas crises nucleares desde 1945, uma vez que a ameaça real permanece quase proibida de mencionar nos círculos do establishment ocidental e portanto nos media. Há apenas uma potência nuclear desenfreada no Médio Oriente e esta é Israel. O heróico Mordechai Vanunu tentou advertir o mundo em 1986 quando revelou provas de que Israel estava a construir até 200 ogivas nucleares. Em desafio a resoluções da ONU, Israel hoje está claramente desejoso de atacar o Irão, receoso de que uma nova administração americana possa, apenas possa, efectuar negociações genuínas com um país que o ocidente tem violado desde que a Gra-Bretanha e os EUA derrubaram a democracia iraniana em 1953.

No New York Times de 18 de Julho, o historiador israelense Benny Morris, outrora considerado um liberal e agora um consultor do establishment político e militar do seu país, ameaçou com "um Irão transformado num deserto nuclear". Isto seria um assassínio em massa. Para um judeu, a ironia é gritante.

A pergunta que precisa ser colocada: serão os restantes de nós simples espectadores, a apregoar, como fizeram bons alemães, que "nós não sabíamos"? Será que nos esconderemos cada vez mais atrás daquilo que Richard Falk chamou "um écran farisaico, unilateral, legal/moral [com] imagens positivas dos valores ocidentais e da inocência apresentada como ameaçada, validando uma campanha de violência irrestrita"? Apanhar criminosos de guerra está na moda outra vez. Radovan Karadzic está no banco do réus, mas não Sharon e Olmert, Bush e Blair. Por que não? A memória de Hiroshima exige uma resposta.

http://resistir.info/pilger/pilger_06ago08.html

 

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