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Abe reúne-se com Xi, depois com Modi: Nova ‘Esfera Asiática de Cooperação’?

Por F. William Engdahl | F. William Engdahl (Blog)

Blog do Alok - 5 de Novembro, 2018

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Uma das consequências mais importantes da guerra comercial que o governo Trump faz contra China e também contra o Japão, é o recente encontro econômico-diplomático entre o primeiro-ministro do Japão Shinzo Abe e o presidente da China Xi Jinping em Pequim. É não só porque é a primeira visita de qualquer primeiro-ministro japonês, em sete anos, desde o resfriamento das relações, por efeito de disputa por ilhas no Mar do Leste da China. Também é consequência importantíssima porque sugere que uma nova estratégia política e econômica pode estar emergindo na mais ampla esfera econômica da Ásia. Horas depois de ter deixado Pequim, Abe recebeu em Tóquio a visita do primeiro-ministro Narenda Modi. Significará, toda essa movimentação, que está emergindo um novo flanco no mundo multipolar? Ou tudo não passa de política esperta, de Abe?

Comprovando que viu a reunião em Pequim como mais que simples pose para os fotógrafos, Abe levou uma comitiva de cerca de 1.000 dos principais empresários japoneses. O primeiro-ministro da China Li Keqiang anunciou que se assinaram contratos no total de $29 bilhões para swaps de moeda, em eventuais crises monetárias futuras. Os dois líderes decidiram criar uma linha privada de comunicação, para o caso de possíveis tensões futuras. Abe também convidou Xi a visitá-lo no Japão em 2019, passo realmente gigantesco.

Menos discutido na mídia foi o fato de que o Japão concordou com incluir o renminbi chinês na cesta de moedas de reserva do Japão – empurrão importantíssimo para firmar a credibilidade da moeda chinesa. E a China, por seu lado, permitirá que o Banco do Japão invista diretamente em papéis do governo chinês.

Tampouco apareceu na mídia, nem na China nem no Japão, um oferecimento histórico, feito pelo Imperador Japonês e trazido por Abe, a Xi. Segundo fontes bem informadas no Japão, Abe foi portador do desejo do Imperador Akihito do Japão de visitar a China antes da abdicação, marcada para abril próximo, para oficialmente pedir desculpas aos chineses pela invasão japonesa, nos anos 1930s. Ao mesmo tempo, o Imperador convidou Xi da China a visitar o Japão. Segundo as mesmas fontes, Xi aceitou o convite, independentemente de o Imperador ir ou não à China. É movimento que Pequim e os chineses verão como mais que simbólico.

Importante também, Li convidou formalmente o Japão a reconsiderar a questão de o Japão integrar-se ao ambicioso projeto de infraestrutura chinês “Iniciativa Cinturão e Estrada” (ICE), que foi recentemente criticada por parceiros malaios, paquistaneses e outros. Ao mostrar-se disposta a trabalhar com o Japão, que é a terceira maior economia industrial do mundo, depois de EUA e China, a China espera encorajar outros países a também se aproximarem.

Nunca, na história do mundo, alguma nação até há tão pouco tempo ainda subdesenvolvida, tentou tamanha série de projetos multinacionais em tantos países e culturas, como a China, no século 21, com sua ICE. As acusações de que estaria praticando “diplomacia de dívidas” e de se recusar a levar na devida conta os interesses locais deram recentemente a primazia nos discursos públicos aos críticos norte-americanos e da União Europeia (UE) contra a ICE e Rota Econômica da Seda. Bem evidentemente Pequim aprende rapidamente com os próprios erros, pelo menos a julgar pelas conversas com o Japão.

A fórmula ‘de trabalho’, que Abe repetiu várias vezes durante as conversações foi “da competição, à cooperação”. O presidente Xi da China declarou que “relações bilaterais foram afinal repostas na trilha certa, e movimentos positivos estão ganhando impulso.” Abe pediu que Pequim coopere nos investimentos em infraestrutura de outros países, potencialmente um grande avanço para os dois lados, que sempre mantiveram feroz disputa por contratos na Tailândia, na Índia e em outros países.

Além disso, Abe e Li concordaram com iniciar um “diálogo pela inovação”, no campo de tecnologias de ponta e direitos à propriedade intelectual. O premiê Li pediu que Abe amplie ativamente a cooperação dos japoneses para a ICE, e as duas gigantes econômicas asiáticas concordaram em trabalhar juntas em vários projetos da ICE. Os dois países também manifestaram o desejo comum de promover uma Península Coreana desnuclearizada.

Mudança geopolítica – Japão Índia Rússia

O passo dado por Abe – que foi cuidadosamente preparado durante meses – é evento notável para o Japão na era pós-1945. Como escreveu Zbigniew Brzezinski, o Japão era visto em Washington como mero vassalo de interesses dos EUA. Quando uma crise do dólar ameaçou Washington, o secretário do Tesouro dos EUA, James Baker, aplicou uma chave de braço nos japoneses e os chantageou para que aceitassem o Acordo de Plaza, em 1985, para desvalorizar o dólar em relação ao Yen. Ao longo de dois anos o dólar caiu mais de 50%, o que inflou a descomunal bolha japonesa. Os efeitos do colapso da bolha, em 1990, ainda hoje atormentam o Japão. O Japão continuou obedientemente a comprar papéis com cobertura do Tesouro dos EUA, e até aceitou instalar as defesas-provocação que são os mísseis THAAD dos EUA apontados para China e Rússia.

Para o Japão, que apenas há poucos meses enfurecia Pequim, quando acolheu em seu território mísseis de defesa dos EUA, o claro movimento para alcançar uma reaproximação com Pequim tem alto potencial. Os dois países têm altas apostas nos movimentos que começam entre as duas Coreias para restabelecer laços econômicos e políticos.

Desde o fim da Guerra Fria, os EUA manipularam a situação na Península Coreana para manter crises repetidas, com o objetivo – como disse um ex-embaixador dos EUA em Pequim, numa discussão comigo no final dos anos 1990s – de garantir pretexto para manter a frota naval dos EUA no Mar do Japão, não só contra a Coreia do Norte, mas também contra China e potencialmente contra o Japão.

Pouco depois de voltar de Pequim, Abe reuniu-se com o primeiro-ministro Narendra Modi em Tóquio. Ambos concordaram em iniciar diálogo regular no plano dos ministros da Defesa e de Relações Exteriores. Também cooperarão em projetos de infraestrutura em Bangladesh, Myanmar e Sri Lanka, países onde China e a ICE estão ativas. Pode ser um teste crucial da nova declaração de “cooperação, não competição” entre China-Japão.

Se Japão e Índia incluem China e países relevantes no diálogo cooperação, seria impulso gigante para a Iniciativa Cinturão e Estrada, demonstrando que não se trata de projeto “Made in China” fixado, mas de um roteiro dinâmico a ser negociado por todas as partes relevantes.

Como com a China, o Japão também assinou um acordo de swap bilateral [troca] de moedas com o Banco Central da Índia, dessa vez de $75 bilhões. Claramente, o Japão antecipa futuras tempestades financeiras, além das tarifas e sanções norte-americanas. O Japão já está financiando 80% de um projeto de trem-bala Mumbai-Ahmedabad mediante empréstimos soft com juros de 0,1% em 50 anos, e moratória de 15 anos. Os dois países também concordam em apoiar uma diplomacia a favor da Península Coreana desnuclearizada.

À luz das conversas amistosas com Abe e Xi poucos dias antes, o evidente objetivo desse encontro com Modi é garantir que o Japão esteja plenamente engajado com as duas economias gigantes – China e Índia –, de modo a que se garanta desenvolvimento mais efetivo para toda a Ásia, o que Washington claramente não vê com bons olhos.

Ao mesmo tempo em que aprofunda a cooperação com China e Índia, o Japão engaja-se cada vez mais com a Rússia, outra potência do Extremo Oriente, e potência hoje aplicada a abrir ao desenvolvimento econômico a parte oriental do próprio território. O Japão acaba de anunciar que realizará testes logísticos usando a Ferrovia Transiberiana e uma linha comercial por mar para conectar Rússia, China, Japão e Coreia do Sul, num corredor comercial. Essa linha marítima conectará a província chinesa Jilin, Vladivistock na Rússia, Donghae na Coreia do Sul e Sakaiminato no Japão. Pode significar considerável impulso ao comércio Japão-Rússia e garantir apoio para a modernização das 5.772 milhas da linha Transiberiana que cruza a Rússia. Pode encurtar dramaticamente os 62 dias de viagem das exportações, e encurtar os custos de transporte em estimados 40%.

Todas essas iniciativas sugerem o enorme potencial do engajamento construtivo entre as potências e nações asiáticas, se for coordenado ‘localmente, sem intervenção de Washington. Mesmo assim, a forma mentis dominante em Washington mantém-se na Idade da Pedra Washington Über Alles. O tenente-general Ben Hodges, comandante do Exército dos EUA na Europa (ing. USAREUR) até se aposentar ano passado, falou recentemente no Fórum de Segurança de Varsóvia. Ali, disse que “Creio que em 15 anos –, não é inevitável, mas a probabilidade é alta – estaremos em guerra com a China.” E mais não disse.

Em janeiro de 2018 o Pentágono divulgou sua nova “Estratégia do Pentágono para a Defesa Nacional”. Ali se apontam China e Rússia como as maiores ameaças potenciais que se veem diante dos EUA.

O modo como essa virada dramática nos eventos emergiu a partir de 2014 nada tem a ver com o que a mídia ocidental dominante controlada pela OTAN têm repetido incansavelmente: só tem a ver com o futuro de Washington como única superpotência, ainda que seja preciso ir à guerra. É idiota, de fato, é imbecil. Que tal pensar em fazer dos EUA outra vez uma grande potência econômica, aliada, como outras, às iniciativas sem precedentes do crescimento asiático? Melhor que mais uma amaldiçoada guerra, que os EUA já declaram inevitável.

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

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Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche. Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis. Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).

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