Guerra: Trump com poucas cartas na mão
Diante de um Irã fortalecido e desafiador, presidente alterna insultos e pedidos de trégua. Conflito alastra-se; faltam mísseis e combustíveis. A três meses das eleições, EUA parecem vítimas de sua aposta supremacista e apolínea
por Alastair Crooke (pt-BR) | Strategic Culture Foundation
Outras Palavras - 31 de julho, 2026
https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/guerratrump-com-poucas-cartas-na-mao/
Trump ordenou que as Forças Armadas dos EUA não realizassem novos ataques contra o Irã na noite de 24/7, apesar de ter aprovado anteriormente um “ataque massivo demoninado ‘Portões do Inferno’” contra Teerã.
Os EUA solicitaram agora um novo cessar-fogo temporário e buscam o retorno ao Memorando de Entendimento (MoU) que entrou em colapso e foi suspenso, com discussões que incluam o Iêmen, e com Trump buscando tornar o movimento houthi parte das negociações.
É evidente que o presidente está irritado e teme que a guerra esteja consumindo sua presidência (e seu legado). O Irã rejeitou categoricamente todas as negociações ao longo da última semana e confirmou que não iniciará negociações sob nenhuma circunstância. Em termos simples, por que Teerã consentiria em dar tempo aos EUA para se reorganizarem e se rearmarem antes de lançarem outra rodada de ataques contra o Irã, quando tem os EUA “na defensiva”?
Um retorno ao Memorando de Entendimento cuja credibilidade Trump repetidamente destruiu? Improvável.
Will Schryver observa que circulam rumores de que o Pentágono está pressionando Trump a cancelar a guerra com o Irã porque os EUA quase esgotaram seus estoques de interceptores de defesa aérea e mísseis de ataque de longo alcance. Os principais assessores do presidente também estão preocupados com a perspectiva de uma guerra cada vez mais ampla no Oriente Médio, com o afastamento de aliados-chave do Golfo, vulneráveis a novos ataques iranianos, e com a iminente crise energética. “Poucos, se é que alguém, no círculo íntimo de Trump acreditavam que o plano de escalada fosse sensato, disseram as duas pessoas a par da situação”, relata o New York Times.
Parece também que as manobras em torno da situação exata do abastecimento de combustível nos EUA podem ter contribuído para a mudança de rumo de Trump. Larry Johnson relata que –
“[Um] relatório elaborado por Karl Miller investiga como as operações secretas de aquisição e exportação de combustível pelas Forças Armadas dos EUA estão esgotando as reservas nacionais de diesel e combustível de aviação, especialmente durante um período em que os estoques domésticos já estão criticamente baixos”.
Em resumo, Miller afirma que –
“grande parte dessa exportação (secreta) de combustível é encaminhada por canais opacos, como o centro de transbordo de Roterdã, onde a alocação final para fins militares ou para o exterior não é divulgada publicamente, deixando a economia norte-americana exposta a riscos de escassez – enquanto operações militares e no exterior – ‘notadamente em Israel’ – recebem acesso prioritário”.
Este relatório de Miller parece estar relacionado à manipulação aberta, por parte das autoridades estadunidenses, dos índices de referência do petróleo, com o objetivo de convencer os mercados de que não há perigo de escassez de combustível decorrente da liberação emergencial em andamento da SPR (Reservas Estratégicas de Petróleo) de 172 milhões de barris, iniciada para combater choques de oferta decorrentes do conflito com o Irã.
Embora o limite mínimo de segurança previsto em lei seja de 250 milhões de barris (o nível atual é de cerca de 300), promove-se a narrativa de que a retirada pode ir ainda mais longe (até 70 mbpd). Será possível? Qual é o nível mínimo que as reservas estratégicas de petróleo podem atingir? A questão é mais complicada do que apenas um grande tanque de petróleo bruto com um nível específico. A SPR é composta por muitas cavernas e contém diferentes tipos de petróleo bruto, que estão sendo retirados em ritmos distintos, com algumas cavernas suscetíveis de desabar se forem esvaziadas em excesso. Em resumo, ninguém sabe até onde é demais. É tudo suposição.
Com a ofensiva militar de Trump enfraquecida, o único caminho de volta às negociações seria oferecer concessões reais logo no início. Mas, mesmo que Trump fizesse isso, será que acreditaria nele? E será que o estado mental de Trump aguentaria tal humilhação implícita?
O principal obstáculo no caminho de volta às negociações com o Irã é que ele e seu círculo íntimo entendem o Irã de cabeça para baixo. Afirmam acreditar que estão lidando com uma liderança intransigente e linha-dura, enquanto os iranianos como um todo anseiam por uma saída. Esta concepção está errada; é exatamente o contrário. É a liderança que é pragmática, e é “a rua” que, em geral, é mais linha-dura e exige vingança. E exige saber por que deveria haver negociações, para começar.
Por outro lado, a equipe de Trump e seus defensores da Fox News abandonaram a antiga visão que os EUA mantinha sobre si mesmos — uma nação redentora… — e caíram em uma “autocaracterização” maniqueísta radical, escreve o professor Michael Vlahos, na qual –
“as ‘boas novas’ americanas foram substituídas pelo espectro sempre presente do Mal e pela ameaça do uso da força. As palavras sagradas, Liberdade e Democracia, embora ainda sejam entoadas, tornaram-se um mantra vazio. O ‘evangelho’ americano não prega mais sobre trazer redenção e expiação: agora se preocupa com imposição e punição. A reviravolta ocorreu em um instante, no 11 de setembro e com Guantánamo”.
O problema, então, está centrado na atitude: como é possível negociar ou dialogar com a personificação do mal (como Trump se refere aos iranianos)? Não é possível, é claro. Esse era o objetivo de retratar os inimigos em termos tão sombrios. Isso impede uma verdadeira mediação. Impede uma solução que possa ser vista como a ascensão ao poder de “um dos povos mais malignos da história”, liderando uma “gangue de bandidos sanguinários”. Isso reduz a política à busca pelo domínio sobre a “alteridade”.
O Ocidente pratica uma maneira específica de pensar que considera representar a essência do que é humano. Esse modo de pensar (frequentemente denominado apolíneo) está ligado ao patriarcado, à lei e a um pensamento vertical, de cima para baixo, secular, racional e mecanicista. Ele oferece pouco espaço para o “entre-dois”. As coisas são ou “A” ou “não-A”.
No entanto, outra esfera (frequentemente denominada dionisíaca) expressa a dualidade energética tanto na natureza quanto no ser humano – masculino e feminino; ordem e transgressão exuberante; e retidão e degeneração. Elas formam os pólos dentro da consciência que coexistem em nós e que se constituem mutuamente. (O logos dionisíaco pode ser visto, talvez, como a sombra, ou mesmo como a revolta contra Apolo).
E então há Perséfone (o reverso da “sombra” dionisíaca), que expressa a existência ctônica e feminina. Aqui não há polo masculino, mas apenas uma deusa que irradia a essência da terra e o princípio feminino da reprodução, o processo de crescimento e de cuidado, e o conhecimento do submundo (chamado de intuição) — simbolizando a Vida cíclica de Afrodite, a decadência, a morte e a renovação definitiva.
A arrogância imperial de Trump está começando a encarar o fato de que ele terá dificuldade — talvez lhe seja impossível — de encontrar uma solução para o Oriente Médio. Ver o mundo a partir da perspectiva puramente apolínea é masculino e exclusivista e não permite compreender a “alteridade”; ao contrário, baseia-se em privilégios excepcionais. Simplesmente não reconhece — e não pode reconhecer — a pluralidade de mentes.
Os EUA perderam a guerra. Ao adotar uma linguagem maniqueísta e intransigente como essa, Trump efetivamente se afastou de qualquer solução diplomática em potencial. Ao ampliar a guerra (Líbano, Iêmen, Síria e Iraque), ele complicou gravemente qualquer via diplomática. Todos os elementos estão inter-relacionados, mas também têm agendas distintas. Assim, uma solução envolve uma matriz complexa de questões, em vez de uma disputa binária apenas entre os EUA e o Irã. Os EUA acabarão tendo que capitular, o que resultará na ascensão do Irã como potência regional (fortalecendo a Rússia e a China), enquanto a região, aos poucos, aceitará essa nova realidade do Oriente Médio.
Tradução: Rôney Rodrigues
Alastair Crooke (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003).
https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/guerratrump-com-poucas-cartas-na-mao/
Concorda? Discorda? Comente e partilhe as suas ideias
Regras da Comunidade
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do site.
| Capa | Artigos | Termo de Responsabilidade | Contacto |