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“Projeto MK Ultra”: o caso alucinado de Fort Detrick

por Ceng Jing | CGTN

TLAXCALA - 14 de maio, 2020

http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=28944

Desde que o governo Trump declarou emergência nacional em meados de março, devido à rápida disseminação do COVID-19, o trabalho de desenvolver uma vacina foi atribuído ao principal Laboratório de pesquisa de vírus do Exército dos EUA em Fort Detrick, localizado no subúrbio de Maryland, a 80 km de Washington. DC.


Nas últimas décadas, foram realizadas naquele complexo importantes pesquisas sobre uma ampla gama de vírus e bactérias. Naquelas instalações de ponta também se armazenam algumas das toxinas mais perigosas conhecidas pela humanidade, incluindo ebola, antraz e o coronavírus SARS.

A obscura base militar ficou sob os holofotes em 2008, depois que recaíram sobre um de seus cientistas suspeitas de que fosse autor do ataque de antraz em 2001, quando várias cartas contendo o germe mortal foram enviadas para redações de mídia e escritórios do governo norte-americano.

No ano passado, um dos laboratórios de alta segurança mais importantes do campus foi fechado pelas autoridades de saúde, por violações de segurança. Além de alguns incidentes aqui e ali, Fort Detrick parece-se com qualquer dos vários locais onde se faz ciência médica moderna. Voltando um pouco atrás na história, no entanto, logo se vê emergir um período dos mais estranhos.


Após a Segunda Guerra Mundial, Fort Detrick tornou-se local de horríveis experimentos científicos conduzidos pela CIA, em operação do mais alto sigilo, que visavam a controlar a mente humana, sob nome geral de “Projeto MK Ultra”. Depois de mais de 20 anos, o projeto terminou em fracasso abismal, tendo levado a número desconhecido de mortes, inclusive de um cientista que participou do projeto e de centenas de vítimas americanas e canadenses submetidas a tortura física e mental. Os experimentos não apenas violaram o direito internacional, mas também a própria carta da agência, que proíbe que a CIA opere dentro do país.

O Projeto MK Ultra foi trazido à vida pelo padrinho do império de inteligência da América – o diretor da CIA, Allen Dulles, cuja retórica cada vez mais ardente sobre a ameaça soviética ajudou-o a criar um onipotente aparato de segurança nacional que viria a definir a política americana. Em 1953, depois de capturar pilotos americanos que admitiram o uso de antraz durante a Guerra da Coreia, Dulles começou a divulgar teorias de que eles haviam sofrido lavagem cerebral pelos então comunistas da República Popular Democrática da Coreia. Para garantir a segurança nacional, ele argumentou, os EUA deviam criar seu próprio programa de lavagem cerebral.

A alegação de Dulles baseava-se em pura fantasia da Guerra Fria, pois um relatório que ele encomendou posteriormente rejeitou as alegações comunistas de lavagem cerebral. No entanto, Dulles, esperto mestre de espionagem, que ativamente resgatou várias autoridades nazistas contra a vontade de seu próprio governo, continuou o programa, e por razão muito mais nefasta.

Conforme explicado por David Talbot em seu livro O Tabuleiro de Xadrez do Mal, muitos espiões recrutados nos primeiros dias da Guerra Fria eram personagens indecisos e pouco motivados por vulnerabilidades internas, como ganância, luxúria ou vingança. Enquanto isso, a agência procurava maneiras de descartar essas variáveis psicológicas, criando máquinas humanas que agiriam sob comando, mesmo contra a própria consciência.


Em 19/3/2020, a biocuradora Andrea Luquette prepara culturas de coronavírus para testes no Comando de Pesquisa e Desenvolvimento Médico do Exército dos EUA em Fort Detrick. Foto AP

Em termos oficiais, o principal objetivo do programa seria “pesquisa e desenvolvimento de materiais químicos, biológicos e radiológicos para serem usados em operações clandestinas para controlar o comportamento humano”, de acordo com um memorando cujo sigilo já fora levantado pelo Inspetor-Geral da CIA. O programa rapidamente cresceu em escala, ramificando-se em 149 subprojetos envolvendo pelo menos 80 instituições, incluindo universidades, hospitais, prisões e empresas farmacêuticas nos Estados Unidos e no Canadá.

Para dominar o controle da mente, um grupo de cientistas desonestos testou livremente métodos extremos em humanos, que levariam qualquer pessoa à prisão se não estivesse encoberto pelos parâmetros do Fort Detrick. Isso inclui a administração forçada de drogas psicoativas, eletrochoques forçados, abusos físicos e sexuais, bem como uma infinidade de outros tormentos, todos silenciosamente realizados por trás dos altos muros da “segurança nacional”.

Dulles estava especialmente interessado em descobrir se alucinógenos como o LSD poderiam induzir indivíduos selecionados a realizar “atos de sabotagem substancial ou atos de violência, incluindo assassinatos”, lembrou o principal especialista em venenos da agência, Sidney Gottlieb, que liderou o programa.

Documentos desclassificados revisados pela CGTN mostraram que as premissas que estão sendo investigadas no programa variavam dos mais bizarros aos mais extremos da ficção científica: drogas que “causem confusão mental”; “forneçam um máximo de amnésia”; “produzam euforia pura sem subsequente repressão”; “diminuam a ambição e a eficiência geral do trabalho dos homens”; e muitos outros.

Ao longo de sua vida útil de duas décadas, o programa MK Ultra foi executado sob extremo sigilo, pois a agência esperava uma reação política significativa, caso viesse a conhecimento público. Era tão secreto, de fato, que apenas alguns altos funcionários da agência sabiam de sua existência.

Sem que nem a Casa Branca nem o Congresso soubessem, as pessoas do canto esquecido da América – prisioneiros, prostitutas e sem-tetos – foram escolhidas nas ruas como participantes involuntários da ciência louca de Fort Detrick: “Pessoas que não podiam revidar”, nas palavras de Gottlieb. No entanto, o programa também contava com pessoas que poderiam revidar, incluindo soldados americanos e pacientes inocentes que, inadvertidamente, entraram nos hospitais e clínicas associados ao MK Ultra em todos os EUA.

Em julho de 1954, o aviador Jimmy Shaver, da Base da Força Aérea de Lackland, foi acusado de estuprar e matar uma menina de três anos em San Antonio. Durante o incidente, ele parecia estar em um estado de “atordoamento” e “em transe”. Enquanto estava preso, Shaver também parecia ter perdido uma quantidade enorme de lembranças do próprio passado, incluindo lembranças que envolviam sua esposa. Quatro anos depois, Shaver foi executado, no seu 33º aniversário. Somente depois o público soube que Shaver, que não possuía antecedentes criminais, era uma das cobaias usadas pelo MK Ultra. O projeto de controle da mente teve papel significativo no envio de Shaver à cadeira elétrica, de acordo com o The Intercept (4/1/2020, em port.).

Outros que sobreviveram aos brutais experimentos revelaram os horríveis efeitos posteriores da lavagem cerebral sancionada pela CIA. Linda McDonald, 25 anos e mãe de cinco filhos pequenos, relatou que se transformara em criança, depois de passar pelos notórios experimentos da Sala do Sono, que lhe disseram que tratariam sua (inexistente) esquizofrenia aguda. Por 86 dias, McDonald ficou em coma induzido, em sessões de poderosos narcóticos e eletrochoques que queimaram seu cérebro 102 vezes.


O ex-presidente dos EUA, Gerald Ford, pediu desculpas em 1975 à família de Frank Olson, que morreu em 1953, depois de um experimento com LSD que lhe foi ministrado pela CIA. Foto AP

“Tive de reaprender a usar o banheiro”, disse McDonald. “Eu era um vegetal, não tinha identidade, nem memória. Não tinha passado, nunca existira no mundo, antes. Como um bebê”.

No entanto, de todos os 180 médicos e pesquisadores que participaram dessas experiências ilegais, poucos expressaram qualquer suspeita ou remorso.

O que apareceu morto

Frank Olson era bioquímico e pai de três filhos que trabalhavam nos Laboratórios de Guerra Biológica em Fort Detrick. Foi um dos cientistas do MK Ultra que viajou regularmente a vários “buracos negros” na Europa para observar diferentes experimentos em humanos. Após uma visita de 1952 ao Camp King, um famoso esconderijo da CIA na Alemanha, ficou particularmente abalado com a crueldade à qual os prisioneiros soviéticos foram submetidos, segundo Talbot.

“Passou por momento difícil depois da Alemanha ... drogas, tortura, lavagem cerebral”, disse o ex-colega de Olson na Detrick, o pesquisador Norman Cournoyer. Quando retornou da Alemanha, Olson havia sofrido uma “crise moral” e estava pronto para desistir da própria carreira científica para se tornar dentista, segundo a família. No entanto, antes que pudesse mudar de vida, o próprio cientista tornar-se-ia uma das muitas vítimas do MK Ultra.

Uma semana antes do Dia de Ação de Graças, Olson foi convidado para um retiro de fim-de-semana numa instalação isolada da CIA em Deep Creek Lake, em Maryland. Numa daquelas noites, após o jantar, Olson e outros cientistas desavisados receberam bebidas com LSD, depois do que Olson começou a alucinar. A provação terminou uma semana depois, quando atravessou o vidro da janela do 13º andar no Statler Hotel em Manhattan. A morte do cientista foi rapidamente ‘investigada’ e ‘decidida’ às pressas pelos funcionários da CIA, como suicídio. Os filhos de Olson absolutamente não aceitaram aquela “narrativa” inverossímil, e começaram a própria investigação sobre o fim trágico do pai.

Depois de décadas de idas e vindas com o governo dos EUA e a investigação dos filhos de Frank, Eric e Nils, que incluiu exumação e autópsia dos restos mortais do pai, evidências substanciais passaram a apontar a possibilidade de assassinato do cientista. O patologista forense James Starrs apontou várias inconsistências importantes que contradiziam a narrativa oficial de suicídio. Apesar de ter caído de costas, o crânio acima do olho de Olson estava rachado, o que sugere golpe violento na cabeça, antes de colidir com a janela.

“A morte de Frank Olson em 28/11/1953 foi assassinato, não suicídio”, declarou Eric Olson. “Essa não é história de experimento com LSD e outras drogas, como foi representada em 1975. É uma história de guerra biológica. Frank Olson não morreu porque fosse cobaia de um experimento, que teve uma ‘bad trip’. Olson morreu para evitar que divulgasse informações sobre um programa de interrogatórios altamente secreto da CIA no início dos anos 50 e sobre o uso de armas biológicas pelos Estados Unidos na Guerra da Coreia”.

Traduzido por Coletivo de tradutores Vila Mandinga

http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=28944


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