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A suja história de corrupção de um oligarca americano

Raramente se consegue uma imagem real do interior do mundo corrupto dos oligarcas ocidentais e das manipulações descaradas que utilizam para reforçar as suas fortunas à custa do bem público. O que se segue provém da correspondência do multimilionário de origem húngara, hoje naturalizado norte-americano, o especulador George Soros. O grupo hackerCyberBerkut publicou online cartas alegadamente escritas por Soros que o revelam não apenas como o manipulador das marionetas do regime da Ucrânia apoiado pelos EUA. Revelam também as suas maquinações com o governo dos EUA e funcionários da União Europeia num esquema em que, se tivesse êxito, podia ganhar milhares de milhões na pilhagem dos ativos da Ucrânia. Tudo isso, evidentemente, à custa dos cidadãos ucranianos e dos contribuintes dos EUA

por F. William Engdahl | New Eastern Outlook

Resistir.info - 7 de abril, 2019

https://www.resistir.info/ucrania/engdahl_soros.html

O que os três documentos pirateados revelam é um grau de manipulação nos bastidores dos mais ínfimos pormenores do regime de Kiev pelo multimilionário de Nova Iorque.

No memorando mais longo, de 15 de março de 2015, marcado como “Confidencial”, Soros traça um pormenorizado mapa de ações para o regime da Ucrânia, intitulado “Uma estratégia abrangente a curto e médio prazo para a nova Ucrânia”. O memorando de Soros requer passos para “restaurar a capacidade de luta da Ucrânia sem violar o acordo Minsk”. Para isso, Soros anota tranquilamente que “o general Wesley Clark, o general polaco Skrzypczak e alguns especialistas sob os auspícios do Conselho Atlântico (sublinhado meu) aconselharão o presidente Poroshenko a repor a capacidade de luta da Ucrânia sem violar o acordo de Minsk”.

Soros também requer o fornecimento de armas letais à Ucrânia e o treino secreto de pessoal do exército ucraniano na Roménia para evitar a presença direta da NATO na Ucrânia. O Conselho Atlântico é um importante grupo de reflexão de Washington pró-NATO.

Notavelmente, Wesley Clark também é sócio de negócios de Soros na BNK Petroleum, que faz negócios na Polónia.

Clark, talvez alguém se lembre, era o general, mentalmente instável, da NATO, responsável pelo bombardeamento da Sérvia em 1999, que ordenou aos soldados da NATO abrirem fogo sobre soldados russos que guardavam o aeroporto internacional de Pristina. Os russos faziam parte, na altura, de uma operação de paz conjunta NATO-Rússia, destinada a policiar Kosovo. O comandante britânico, o general Mike Jackson, recusou-se a obedecer a Clark, dizendo: “Não vou iniciar a Terceira Guerra Mundial por sua conta”. Clark, segundo parece, decidiu sair da reforma para poder ir para a Rússia diretamente.

Pilhagem descarada

No seu memorando de março de 2015, Soros escreve que a primeira prioridade do presidente da Ucrânia, Poroshenko, “tem de ser reconquistar o controlo dos mercados financeiros”, assegurando a Poroshenko que estaria pronto a ajudá-lo: “Estou preparado para ligar a Jack Lew do Departamento do Tesouro dos EUA a fim de o sondar sobre o acordo de permuta”.

Também apela aos EUA para dar à Ucrânia uma ajuda anual de 11 mil milhões de euros através de uma instituição especial de empréstimos da União Europeia. Soros propõe usar a avaliação de crédito “AAA” da União Europeia para fornecer um seguro de risco para o investimento na Ucrânia.

Que tipo de riscos a União Europeia seguraria?

Soros especifica: “Estou preparado para investir mil milhões de euros em negócios ucranianos. Isso provavelmente atrairá o interesse da comunidade de investidores. Conforme afirmei atrás, a Ucrânia tem de se tornar num destino atraente para investimentos”. Para não deixar dúvidas, Soros continua, “Os investimentos serão destinados a obter lucros, mas comprometo-me a contribuir com os lucros para as minhas fundações. Isso deve dissipar todas as suspeitas de que estou a defender uma política para benefício próprio”.

Quem conhece a história das Fundações Open Society de Soros na Europa de Leste e em todo o mundo, a partir do final dos anos 80, sabe que estes projetos, alegadamente filantrópicos, de “construção da democracia”, na Polónia, na Rússia ou na Ucrânia nos anos 90, permitiram a Soros, homem de negócios, pilhar literalmente os antigos países comunistas, usando Jeffrey Sachs, o messias da “terapia de choque” da Universidade de Harvard, e sócio de Soros, para convencer os governos pós-soviéticos a privatizar e a abrir um “mercado livre” imediatamente, em vez de gradualmente.

O exemplo de Soros na Libéria é esclarecedor para compreender a interação, aparentemente perfeita entre Soros, o homem de negócios perspicaz, e Soros, o filantropo. Na África Ocidental, George Soros apoiou uma antiga empregada da sua Open Society, a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, dando-lhe publicidade internacional e, através da sua influência, arranjando-lhe um Prémio Nobel da Paz em 2011, garantindo a sua eleição como presidente. Antes de assumir a presidência, ela fora bem doutrinada no jogo do mercado livre do Ocidente, estudando economia em Harvard e trabalhando no Banco Mundial, controlado pelos EUA, em Washington, e no Citibank Rockfeller em Nairobi. Antes de ser presidente da Libéria, ela trabalhou diretamente para Soros como presidente da sua Iniciativa Open Society Initiative for West Africa ( OSIWA ).

Depois de assumir o cargo, a presidente Sirleaf abriu as portas a Soros para que se apoderasse dos principais ativos de ouro e metais básicos da Libéria, juntamente com o seu parceiro, Nataniel Rothschild. Uma das suas primeiras ações, enquanto presidente, foi também convidar o novo Comando de África do Pentágono, o AFRICOM, para a Libéria, cujo objetivo, conforme uma investigação liberiana revelou, era “proteger as operações mineiras de George Soros e Rothschild na África Ocidental que defendem a estabilidade e os direitos humanos”.

O alvo Naftogaz

O memorando de Soros torna claro que ele tem os olhos no monopólio estatal ucraniano do gás e da energia, a Naftogaz. Escreve: “A peça central das reformas económicas será a reorganização da Naftogaz e a introdução do preço de mercado para todas as formas de energia, substituindo os subsídios ocultos…”

Numa carta anterior que Soros escreveu em dezembro de 2014, ao presidente Poroshenko e ao primeiro-ministro Yatsenyuk, Soros apela abertamente para a sua Terapia de Choque: “Quero apelar-vos a unirem-se por detrás dos reformadores do vosso governo e darem apoio total a um tipo de abordagem radical, tipo “big bang”. Ou seja, os controlos administrativos têm de ser eliminados e a economia deve avançar para preços de mercado, de forma rápida em vez de gradualmente… A Naftogaz precisa de ser reorganizado com um big bang que substitua os subsídios ocultos…”

Dividindo a Naftogaz em empresas separadas permitiria que Soros assumisse o controlo de um dos novos ramos e, essencialmente, privatizar os lucros. Já sugeria que, indiretamente, levara para os EUA a empresa de consultadoria McKinsey, para aconselhar a Naftogaz sobre a privatização “big bang”.

O bonecreiro-mor?

A totalidade do que vem revelado nos três documentos pirateados mostra que Soros é efetivamente o principal bonecreiro que puxa a maioria dos cordelinhos em Kiev. O ramo ucraniano da Fundação de Soros, a Fundação Internacional do Renascimento (IRF) está na Ucrânia desde 1989. Esta IRF distribuiu mais de 100 milhões de dólares a ONGs ucranianas dois anos antes da queda da União Soviética, criando as pré-condições para a independência da Ucrânia da Rússia em 1991. Soros também reconheceu ter financiado as manifestações de protesto na Praça Maiden, em 2013-2014, que levaram o atual governo ao poder.

As fundações de Soros também estiveram profundamente envolvidas na Revolução Laranja de 2004 que levaram ao poder o corrupto Viktor Yushchenko pró-NATO com a sua mulher norte-americana que tinha estado no Departamento de Estado dos EUA. Em 2004, semanas apenas depois de a Fundação Internacional do Renascimento ter conseguido que Viktor Yushchenko fosse presidente da Ucrânia, Michael McFault escreveu um artigo de opinião no Washington Post. McFaul, um especialista na organização das revoluções coloridas que depois veio a ser embaixador dos EUA na Rússia, revelou:

Os americanos imiscuíram-se nos assuntos internos da Ucrânia? Sim. Os agentes de influência norte-americanos preferem uma linguagem diferente para descrever as suas atividades – assistência democrática, promoção da democracia, apoio à sociedade civil, etc – mas o seu trabalho, qualquer que seja o seu rótulo, procura influenciar a mudança política na Ucrânia. Instituições norte-americanas como a Agency for International Development dos EUA, o National Endowment for Democracy e outras fundações patrocinaram determinadas organizações dos EUA, incluindo a Freedom House, o International Republican Institute, o National Democratic Institute, o Solidarity Center, a Eurasia Foundation, a Internews e vários outros ao fornecer pequenos subsídios e apoio técnico à sociedade civil ucraniana. A União Europeia, alguns países europeus individuais e a International Renaissance Foundation financiada por Soros fizeram o mesmo.

Soros modela a “Nova Ucrânia”

Hoje os documentos pirateados pelo CyberBerkut mostram que o dinheiro da IRF de Soros está por detrás da criação de um Conselho Nacional de Reforma, um órgão organizado por decreto presidencial de Poroshenko que permite que o presidente ucraniano proponha leis à assembleia legislativa da Ucrânia. Soros escreve, “Também surgiu o enquadramento para unificar os diversos ramos de governo. O Conselho Nacional de Reforma (NRC) reúne a administração presidencial, o gabinete de ministros, o parlamento Rada e as suas comissões e a sociedade civil. A Fundação Internacional do Renascimento que é o ramo ucraniano das Fundações Soros foi o único apoio financeiro do NRC até hoje…”

Com efeito, o NRC de Soros é o veículo que permite ao Presidente ignorar o debate parlamentar para implementar “reformas”, em que a primeira prioridade declarada é a privatização da Naftogaz e o aumento drástico do preço do gás na indústria e nos lares ucranianos, uma coisa que um país em bancarrota dificilmente pode aguentar.

Na sua carta a Poroshenko e a Yatsenyuk, Soros dá a entender que desempenhou um papel principal na seleção de três importantes ministros não ucranianos – Natalia Jaresko, uma antiga funcionária norte-americana do Departamento de Estado, para ministra das Finanças; Aivras Abromavicius, da Lituânia, para ministro da Economia e um ministro da Saúde, da Geórgia. Na sua carta de dezembro de 2014, Soros, referindo-se à sua proposta para uma privatização “big bang” da Naftogaz e para o aumento de preços, afirma: “Têm muita sorte em terem nomeado três ministros da “nova Ucrânia” e vários nativos (sic) que estão empenhados nesta abordagem”.

Noutro local, Soros fala em criar, de facto, a impressão na União Europeia de que o atual governo de Yatsenyuk está finalmente a eliminar a notória corrupção que dominava todos os regimes de Kiev desde 1991. Criando essa ilusão de reformas temporárias, faz notar, convencerá a União Europeia a entrar com o fundo de seguro de investimento de 11 mil milhões de euros por ano. O seu documento de março de 2015 diz que “É essencial que o governo produza uma prova visível (sic) durante os próximos três meses, a fim de alterar a imagem amplamente espalhada da Ucrânia como um país extremamente corrupto”. Isso, afirma ele, levará a União Europeia a fazer o fundo de investimento de garantia de seguro de 11 mil milhões de euros.

Embora diga que é importante mostrar a Ucrânia como um país que não é corrupto, Soros revela que se preocupa quando a transparência e os procedimentos adequados bloqueiam a sua agenda. Falando das suas propostas para reformar a Constituição da Ucrânia para permitir privatizações e outras jogadas do agrado de Soros, queixa-se: “O processo tem sido retardado pela insistência dos novos eleitos na Rada quanto a procedimentos adequados e a uma total transparência”.

Soros sugere que tenciona criar essa “demonstração visível” através das suas iniciativas, como usar o Conselho Nacional de Reforma, financiado por Soros, um órgão organizado por decreto presidencial que permite que o presidente ucraniano proponha leis no parlamento ucraniano.

Para impor a sua estratégia na Ucrânia, George Soros também usa o seu novo grupo de debate, o Conselho Europeu para os Assuntos Estrangeiros, com membros conselheiros como Alexander Graf Lambsdorff ou Joschka Fischer ou Karl-Theodor zu Guttenberg, para não mencionar Jean Claude Trichet, o antigo chefe do Conselho que, sem dúvida, desempenha um papel subtil.

George Soros, hoje com 84 anos, nasceu na Hungria, como o judeu George Sorosz. Soros gabou-se um dia, numa entrevista à TV, que durante a guerra se tinha feito passar por gentio, com papéis falsos, ajudando o governo de Horthy a apoderar-se da propriedade de outros judeus húngaros que estavam a ser enviados para os campos de extermínio nazis. Soros disse ao moderador da TV: “Não fazia sentido que eu não devesse estar ali, porque aquilo era – bem, realmente, divertido, é como nos mercados – se eu não estivesse ali a fazer isso, naturalmente alguém o faria”.

É esta a mesma moral que parece estar por trás das atividades de Soros na Ucrânia de hoje. Mais uma vez, parece não se importar que o governo ucraniano, que ele ajudou a subir ao poder através do golpe de estado de fevereiro de 2014, esteja cheio de anti-semitas explícitos e de autoproclamados neonazis do Partido Svoboda e do Sector Pravy. George Soros é claramente um devoto das “parcerias público-privadas”. Só que aqui o público é depenado para enriquecer investidores privados como Soros e os seus amigos. Cinicamente, Soros assina o seu memorando sobre a estratégia na Ucrânia, “George Soros – defensor autonomeado da nova Ucrânia, 12 de março de 2015”.

Tradução de Margarida Ferreira

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Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche. Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis. Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).

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